Por cerca de 20 e poucos anos da minha vida, a única coisa que se exigiu de mim foi ler e escrever com frequência praticamente diária.
Dos exercícios de letramento (que geraram uma felicidade única na minha mãe quando ela descobriu que seu filhinho de quatro anos foi a primeira criança do Pré-I de 1991 a começar a ler), passando pela deliciosa e completadora inutilidade de devorar literatura, quadrinhos e mangás como se não houvesse amanhã no tempo livre, a trabalhos de filosofia que envolviam temas obscuros e obtusos como a descrição do não-idêntico de maneira que não o identifique a nada ou sobre o movimento dialético entre mito e esclarecimento, dá pra dizer que foi muito tempo investido com letras em um suporte impresso ou digital.
[Adendo: talvez tanto tempo assim em meio a letras e abstrações em detrimento de mais contato humano tenha causado um certo prejuízo no que diz respeito aos traquejos sociais desse que vos fala. Mas só talvez.]
E então, subitamente, durante um ano, esse hábito de leitura quase obrigatório me é tirado: a saída da faculdade, em conjunção com um emprego, diminuiu grandemente o hábito de ler e escrever com grande frequência. Graças a isso, há uma inevitável atrofia das capacidades de leitura e (especialmente) da escrita: não há nada mais frustrante do que ler textos antigos e ver que, é verdade, você se expressava melhor e com mais fluidez quando tinha mais contato com a produção cotidiana de textos.
De maneira a evitar isso, um amigo deu a sugestão de exercer uma prática de produção textual que o escritor Terry Pratchett colocou a público: escrever, diariamente, um texto de 500 a 1000 palavras, de maneira a exercitar as habilidades envolvidas na criação de um texto e articulação dos temas nele envolvidos. Achei a ideia boa e, após um pouco de procrastinação, decidi colocá-la em prática.
Mas, como conheço-me muito bem, decidi fazer a prática em caráter semanal.
Esse tipo de exercício, em uma análise fria, não faz muito sentido: a produção de um texto não funciona seguindo as mesmas regras da produção de um pacote de macarrão, então estabelecer certas metas é, de maneira bem sucinta, algo sem razão de existir: textos curtos podem ter muito mais qualidade do que textos longos, e a dificuldade de produzir textos grandes ou pequenos muda de acordo com temáticas envolvidas, construção de texto, o que se propõe a fazer a partir do mesmo e outros fatores altamente abstratos e arbitrários que, desnecessário dizer, tornam a produção escrita algo que, sob análise mais profunda, é bem mais complicado do que parece inicialmente.
Metas arbitrárias e sem muito sentido à parte, o mérito real nesse tipo de prática está em colocar a produção de textos como um trabalho de fato - isto é, algo que exige esforço, dedicação, retrabalho e revisões aos montes para chegar em algo minimamente decente, ao contrário da abordagem "baixou o santo" que muita gente (inclusive eu) adota.
O mais importante de fato, na minha opinião, é colocar em prática uma das melhores frases que li sobre produção criativa: originalmente ela diz respeito à produção de ilustrações, mas creio que a aplicação dela é muito válida para outros campos também. Segue ela em versão livre, puxada da minha não muito funcional memória:
"Dentro de você há milhares de desenhos ruins. A proposta de treinar é que você coloque todos esses desenhos ruins para fora, de maneira a abrir espaço para os desenhos bons saírem!"
Em outras palavras, não dá pra esperar que tudo que você faça saia com qualidade primorosa: as coisas boas só vão começar a aparecer após certa familiaridade com os instrumentos e saberes envolvidos, e acho que é esse o brilho real desse exercício de escrita periódica que o Terry Pratchett propõe.
E, com isso, acho que já escrevi o primeiro texto de 500 palavras desse ano. Que venham os demais!
Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012
Assinar:
Postagens (Atom)