Sábado, Dezembro 31, 2011

Sobre tradições japonesas e a necessidade de se fazer a revisão de um ano

As famílias japonesas mais antigas, pertencentes à primeira e segunda geração que migraram ao Brasil, possuem uma série de superstições e crenças menores que são seguidas de maneira levemente religiosa por conta das influências xintoístase budistas sobre a vida cotidiana dos japoneses.

Dentre essas crenças, há a ideia de que 12 em 12 anos a pessoa passará por um ano repleto de prosperidade e alegria, de maneira a pereceber que a vida possui momentos repletos de alegria e felicidade. Da mesma maneira, de tanto em tanto tempo a pessoa passará por um ano especialmente difícil, de maneira a relembrar da fugacidade da alegria em nossas vidas e da existência de dificuldades nela, de maneira a não se apegar demais aos momentos felizes ou tristes e aprender que, independente de haver felicidade ou tristeza, o importante é saber e viver com o conhecimento de que ambos são passageiros e devem ser superados, por bem ou por mal.

Esse ano das dificuldades é chamado, em japonês, de yakudoshi (tradução grosseira: ano calamitoso ano crítico), e ele acontece quando o homem faz 25, 42 e 61 anos, e para a mulher ele vem aos 19, 33 e 37 anos. Recomenda-se que a pessoa visite templos e faça os rituais de purificação xintoístas e budistas para espantar o azar, e o ponto crucial é que se faça uma festa com amigos e parentes com o único objetivo de se espantar o yakudoshi, de maneira a espantá-lo com alegria e união.

2011 foi o meu primeiro ano de yakudoshi.

E, o pior!, não fiz a tal da festa, muito menos os rituais para espantar o azar.

De maneira a fazer uma mea culpinha em relação ao desprezo destinado às tradições que dizem que esse seria um ano horroroso, me senti obrigado a fazer um balanço para ver onde ocorreu a tragédia na minha vida este ano. E vamos lá!

Apesar desse desrespeito às tradições ancestrais, não tive grandes golpes de azar nesse ano no que diz respeito às relações pessoais, apesar de muita coisa ter mudado e alguns eventos críticos terem ocorrido; muita gente se foi de um jeito ou de outro, mas muita gente chegou também e fortaleceram-se alguns laços mais antigos. Pelo menos no campo pessoal, 2011 foi um ano bem atribulado, mas o balanço geral é que não foi especialmente negativo. Vitória para o ceticismo nesse campo!

Profissionalmente, este foi o primeiro ano desde 2005 em que meu ofício não foi frequentar aulas, fazer trabalhos e ler feito um condenado praticamente todos os dias: ao invés disso, entrou uma rotina de trabalho de bater cartão e fazer coisas diversas 8h por dia para ganhar uma grana no final do mês. Ainda está um pouco cedo para fazer uma avaliação suficientemente embasada para saber o que seria melhor para mim, já que a rotina de faculdade ainda está fresca em minha mente; porém, já sei o suficiente para dizer que até agora a rotina quadradinha de trabalho me fez crescer em muitos aspectos (e não estou falando somente de saldo de conta corrente aqui!), apesar das dificuldades e problemas que são inerentes a qualquer emprego. Outro ponto para o ceticismo!

No campo da saúde... É, os deuses xintoístas me deram uma surra aqui. Nunca fiquei tão doente e aflito por condições físicas diversas quanto nesse ano, e saio de 2011 ainda mais neurótico e complexado com meu corpo e meu estado de saúde do que entrei. Claro que é bobagem pensar que isso estabelece uma conexão automática e certeira com as tradições semi-religiosas que são a origem do yakudoshi, mas o que mata é a dúvida que elas nos deixam por não ter seguido-as. Droga!

Podia ficar falando aqui de muitas outras coisas, mas o negócio é o seguinte: funcionando ou não o tal do yakudoshi, 2011 foi um ano em que tomei rumos bem diferentes daqueles que vinha tomando nos anos anteriores, o que por si só já é um tremendo ponto positivo. Rever tradições e observar o crescimento pessoal de diversos ângulos é o suficiente para tornar esse ano memorável e positivo em retrospecto.

Citando um amigo, que venha 2012, e que ele seja melhor do que 2011 e pior que 2013. Bom ano novo a todos!

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