Segunda-feira, Dezembro 19, 2011

Sobre a Fugacidade da Inspiração Problemática

Já escrevi um pouco sobre problemas, já escrevi um pouco sobre escrever, já escrevi um pouco sobre os problemas de escrever, e agora vou escrever um pouco sobre o problema de escrever sobre problemas.

A classe média é um estrato muito interessante a se pertencer, do ponto de vista artístico: problemas horrorosos que demandam muito tempo e atenção daqueles que são pobres, como conseguir subsistência mínima e dignidade mínima frente à sociedade através da entrada no mundo do consumo, não existem para a classe média; além disso, os cidadãos médios não possuem meios para afogar todo e qualquer problema através do consumo conspícuo típico dos ricos, que sempre parecem muito felizes e sem problemas em meio ao mar de porcarias e demais mercadorias que o capitalismo tenta vender desesperadamente como soluções implacáveis contra a pobreza de caráter espiritual/emocional. Sem acesso aos problemas das camadas mais extremadas da sociedade, sobra à classe média uma série de problemas frívolos, mas de impacto extremamente grande sobre a psique do sujeito.

Esses problemas vão desde crises existenciais severas e aleatórias a besteiras cotidianas e extremamente frívolas do dia-a-dia, mas a principal característica é a persistência deles: eles vão e voltam, mas sempre permanecem e consomem horas e minutos preciosos de nosso tempo, já que o preço dos mesmos é uma quantidade injusta de atenção e reflexões para duas coisas: as possíveis soluções para eles; ou a impotência frente a certos elementos inescapáveis da vida que eles insistem em esfregar em nossa cara.

Mas Fernando, o Mekaru, o que diabos essa sua reflexão pseudo-sociológica tem a ver com a arte, seu grande enrolão?!, pergunta um leitor que não desligou o senso crítico antes de iniciar a leitura deste texto, e eu respondo: essa síndrome de "classe média sofre" é um tremendo combustível para a arte na maneira em que se tenta fazer a catarse desses problemas!

Há pessoas que tentam sublimar esses problemas de sua vida consumindo coisas, e esses são a maioria: meio que copiando os caras do andar sócio-econômico de cima, consome-se produtos vendidos em shoppings, drogas (legais e ilegais) e produtos abstratos como livros, filmes, jogos eletrônicos, peças de teatro e outros de maneira a se acalmar o indócil espírito em crise da classe média. Alguns malucos um pouco mais esforçados (ou que já consumiram tudo que podiam e ainda se vêem incomodados) vão para o lado contrário, e iniciam uma tentativa de produção de algo para tirar o incômodo que pesa em seus corações doídos.

[Insira aqui seu recontar favorito da história sobre a ascensão da burguesia na Europa durante o século XVI, e como isso gerou uma tonelada de textos, peças de teatro, romances e uma porrada de outros produtos culturais para fazer o tempo dessas pessoas que tinham tempo sobrando passar de forma mais sofisticada e cheia de conteúdo, e como a ascensão do capitalismo no XIX acelerou esse processo de produção cultural de maneira esplendorosa, desesperadora e maluca, e como isso tudo esteve associado conjuntamente a um novo refletir da sociedade e de seus problemas, tanto em nível coletivo quanto individual. Sério, não vou fazer essa pesquisa para vocês, então imaginem que ela está toda aqui!]

Como o extremamente elaborado *cof* parágrafo anterior explica, a criação artística é uma das maneiras mais proeminentes das pessoas destilarem seus próprios problemas e anseios em relação a si próprias e ao mundo que as cerca e colocarem isso de maneira significativa e tocante ao resto das pessoas. É uma maneira nobre de tirar de si os incômodos: ao mesmo tempo em que você alivia-se deles, alguém também pode se aliviar através desse meio.

Pois é, produzir algo é uma maneira extremamente interessante de se colocar para fora os problemas de nossas vidas. Para alguém que possui muitos problemas, grandes e pequenos, é uma grande mão na roda fazer isso.

O problema é quando você tenta colocar para fora os seus problemas de maneira significativa e aí a sua inspiração problemática parece pequena e irrelevante demais para justificar um texto ou o que for, e aí o que te resta é um texto enorme sobre inspiração e meios de produção que pouco ou nada tem a ver com o problema inicial que foi o gatilho para escrever...

[Para saber a tônica do último parágrafo, coloque a seguinte trilha sonora após terminá-lo.]

Problemas, eis o seu problema enquanto inspiração: durante o processo de produção, fica fácil de saber se vocês são pequenos demais ou grandes demais para justificar qualquer coisa...

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