Quarta-feira, Novembro 16, 2011

Fragmento Textual (2)

Algumas linhas pós-funeral. Não lembro muito bem por que não consegui terminar.
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Pessoas vem e vão: essa é uma das poucas certezas da vida.

O que não é tão certo: o impacto desse vai-e-vem humano sobre a vida.

Há uma percepção corrente que coloca nesses dois pólos o ponto de maior interferência na vida: diz-se comumente que a pessoa "entrou na vida" e tudo mudou, ou então que "ela deixou minha vida" e tudo mudou.

Ledo engano: as entradas e saídas ocorrem a todo o momento, e são tão comuns que é impossível de se lembrar de todas as pessoas com quem se teve contato e nunca mais se viu.

O que é mais impactante nas pessoas que se conhece é aquilo que elas [i]deixam[/i] em nós, não o momento que elas entram ou saem de nossas vidas.

Esses resquícios sempre começam da mesma maneira: tão pequenos e insignificantes quanto um mero olhar ou algumas palavras trocadas, gestos efêmeros cuja existência é tão duradoura quanto um piscar de olhos. Em casos de contato contínuo ou de força incomum, é impossível ignorar a pessoa e a influência que ela provoca sobre suas ações, seus pensares e seus sentimentos.

Aquilo que é deixado, não obstante alterar o curso de sua vida, gera uma espécie de ligação com a pessoa em questão: há uma necessidade de deixá-la presente com certa frequência, o que aprofunda o deixado, o que aumenta cada vez mais a necessidade da presença da pessoa, em um círculo vicioso no qual você é deixado com cada vez mais e mais.

De repente, não importa de que maneira, a pessoa se vai. Aquilo que foi deixado permanece com você, mas não aumenta mais. Destinado a erodir com a passagem do tempo, acaba se tornando cada vez mais leve, mas não sem pesar: as reminescências do passado costumam voltar com certa dor conforme se observa e segue os meandros colocados à frente pelas experiências com a pessoa em questão, mas seu destino é se esvair conforme o tempo passa. Eventualmente, após ser consumido pelo amontoar de novas experiências com novas pessoas, o deixado acaba sua existência da mesma maneira súbita e efêmera que começou.

Não resta muito, a não ser as cicatrizes e marcas que o deixado causou durante o seu processo de criação, manutenção e morte: são as influências inescapáveis do passado com a pessoa, que guiaram parte dos processos e acontecimentos responsáveis pela gestação do momento presente.

Marcas indeléveis e inescapáveis, continuam causando mudanças de curso na vida, mesmo após o desaparecimento completo de tudo aquilo que as causou.

1 comentários:

Hugo Ciavatta disse...

Grande Sertão: Veredas