Todo mundo já passou por isso: você (chamaremos de [B] no momento) está meio de bobeira, e aí aparece uma pessoa (chamaremos de [A]) que encaixa-se em uma das duas categorias a seguir:
- Entra em contato com você apenas com um olhar e um gesto de mão, atestando tudo aquilo que espera de você: respeito mútuo mínimo e distância razoável;
- Possui mais contato com você, mas não o suficiente para firmar uma amizade decente: pode-se descrever a relação de vocês como "coleguismo esporádico", já que são pequenas demonstrações de amizade que ocorrem bem ocasionalmente e não são suficientes para caracterizar algo mais forte ou profundo.
Estranhamente, a pessoa se mostra mais receptiva do que o normal, e te aborda com um "Oi, tudo bem? Como vai sua vida?" ou qualquer outro cumprimento genérico esperado quando se quer estabelecer algum tipo de comunicação mais séria, seguido de certo silêncio, o que significa que há um espaço para você falar.
A seguir, um diálogo-exemplo da situação em que quero chegar. Imagino que seja familiar para muita gente:
[B]: [Você fala algo. Não importa se é algo longo, curto, profundo, raso... Qualquer coisa vale.]
[A]: [Complemento genérico e inócuo do interlocutor, que poderia ser feito a dezenas de situações diferentes mas que cumpre o papel de fazer o diálogo continuar. Exemplos clássicos são "É mesmo?" ou "Puxa, que coisa...". Outro clássico aqui é o pavoroso "E o...", no qual o interlocutor tenta colocar como tema da conversa o primeiro assunto que vem à cabeça dele sobre você, mesmo que nunca tenha se interessado por isso antes.]
[B]: [Alguma resposta sua, normalmente completando o que você disse no começo, ou desenvolvendo o "E o...".]
[A]: [Outro complemento genérico de alta aplicabilidade e baixo comprometimento, mas que não dá espaço para continuações. Exemplos incluem "Ah, certo!" ou "Entendi".]
[Silêncio meio constrangedor]
[A]: "Escuta, eu precisava que você [algum pedido que só você pode fazer no momento do diálogo]. Você pode fazer para mim, por favor?".
[B] responde afirmativamente, ou negativamente.
[A] não se importa muito com a resposta: ele só quer saber se terá o que deseja, e se [B] será ou não a pessoa que o levará até lá. De qualquer maneira, ele agradece, e no fundo de sua mente sabe que só contatará [B] novamente quando a situação forçá-lo a tal ou quando precisar de algo novamente.
Paremos por aqui, pois terminei de descrever o objeto do texto de hoje: o "papinho pseudo-amigo", um protocolo social que as pessoas se utilizam para não parecerem interesseiras quando vão pedir coisas para pessoas que não são tão próximas assim.
É bem claro o funcionamento deste protocolo: você chega na pessoa, e faz o papinho, de maneira a dar a impressão que ela é próxima de você o suficiente para que o favor que você pedirá a ela não soe absurdo ou interessado, muito menos que haja a impressão que a pessoa só fala com você quando algum interesse dela só pode ser concretizado mediante sua ação.
O pedido, no caso, sairia atenuado de seus tons egoístas e teria grandes chances de ser atendido, porque você teve o trabalho de montar uma narrativazinha subjetiva com o interlocutor, aproximando-se um pouco dele no processo e diminuindo quaisquer sombras interesseiras que haveria na sua ação - afinal, não foi um pedido curto, grosso e que vai direto ao assunto e motivo pelo qual você entrou em contato com a pessoa, você até falou um pouco com ela! Por que ela não te ajudaria, já que você fez o esforço de se aproximar dela mais do que o normal?
O porém é que esse protocolo é muito mais interesseiro e egoísta do que o mero ato de pedir, e evidencia de maneira brutal a falta de profundidade ou laços entre as pessoas envolvidas.
Primeiro, se você realmente fosse próximo da pessoa, não precisaria chegar nela com papinho: simplesmente pediria e pronto, o pedido seria atendido e ninguém fica parecendo interesseiro no processo. Quando se coloca esse protocolo em ação, as pessoas esquecem de um dos fundamentos da intimidade: conhece-se bem as pessoas de quem se é íntimo, ao ponto de saber que as solicitações delas não são interesseiras e que faz parte pedir coisas para quem é próximo. Aproximações adicionais não são necessárias para se pedir coisas quando se tem alguma intimidade; qualquer coisa diferente já desperta alguma atenção negativa.
Segundo é o fato que ambas as partes sabem que, após o pedido (independente da sua realização ou não), a proximidade montada pelo papinho se esvai e a distância se torna novamente a regra de relação entre os dois envolvidos. Ou seja, o interesse sempre acaba se mostrando como motivador do contato quando o protocolo social tem fim e as duas partes retornam às suas atividades cotidianas. Não importe o quanto a pessoa se esforce para não parecer interessada, a própria distância que dá a tônica da relação dela com a outra pessoa acaba evidenciando sua motivação real.
Fica claro que este protocolo não é muito efetivo para o seu propósito, e só evidencia o que deveria ocultar em primeiro lugar - isto é, a distância e pouco interesse mútuo existente entre os envolvidos. Mas o problema é que ele está tão bem-estabelecido que quebrá-lo sempre parece muito rude. Voltemos ao diálogo-exemplo, mais detalhado e com uma mudança: [B] acordou com o seu lado misantropo mais aguçado hoje, e está com pouca disposição para manter certos afazeres sociais que se esperam dele.
[A]: Oi, tudo bem? E aí, como vai a vida?
[B]: Indo.
[A]: Ah, certo... E o curso de espanhol, como está?
[B]: Não está, parei faz algum tempo.
[A]: Ahm... Puxa, por que?
[Silêncio constrangedor momentâneo, [B] visivelmente irritado.]
[B]: ... Escuta, pára de papinho. O que é que você quer de mim?
Aqui, [B] corta a bobagem toda do protocolo e vai direto ao motivador central dessa conversa: o interesse que [A] tem nele e que só a ação de [B] consegue garantir no momento. Ao invés de sair bem dessa situação ao ir direto ao ponto e não fazer nenhum dos dois perder tempo com teatrinhos sem sentido, [B] se sai muito mal: sua quebra súbita de protocolo e honestidade perante a situação é percebida como grosseria ou mau humor, o que é um grande prejuízo social para ele. Pratica-se uma grande injustiça com isso: a pessoa interesseira sai desta situação como a que sofreu uma injúria, enquanto a pessoa que é honesta sai como uma agressora.
Esse e outros protocolos sociais, meio que paradoxalmente, são algumas das coisas mais antissociais que existem nas relações humanas: elas parecem supor a superação do ego e a formação de laços com as pessoas, quando na verdade servem para ocultar sentimentos e motivações que, em última instância, não tem nada a ver com formar ligações duradouras com os outros e só dizem respeito à satisfação de aspirações individuais.
Depois disso tudo, só uma palavrinha final: na dúvida, quebre o protocolo. Você coloca a situação de maneira honesta, ninguém perde tempo e, muito provavelmente, uma relação interesseira acaba na hora. Todo mundo sai ganhando algo. Fazer uma pequena revolta contra os protocolos tem seus benefícios!
Segunda-feira, Junho 06, 2011
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1 comentários:
Ai, Mekaru, incrível!
Desse jeito, estão contados os dias de um "Ás do papinho" por aí afora! haha
Abraços
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