Sexta-feira, Janeiro 21, 2011

Micropoderes

Tempo atrás aí, fui recrutado por uma certa empresa. Ganhei atribuições e problemas a resolver, como qualquer emprego faz.

Ao mesmo tempo que fui empregado, descobri que o novo trabalho não me dava apenas um salário legal e plano de saúde excelente: ele me dava o poder de se tornar uma figura sem passado e sem nome, capaz de intimidar as pessoas e fazê-las parar o que estão fazendo com pouco esforço, e dotada de uma autoridade e confiabilidade que outrora eu nunca tive.

O melhor: nem precisei ceder uma porcentagem do meu salário para conseguir esses poderes.

Assim que bato o cartão, torno-me a figura que as pessoas comuns normalmente referem-se somente como... "O moço".

Para me tornar essa figura, preciso de dois símbolos de poder, concedidos a mim na primeira semana de trabalho: um crachá, que tem o incrível poder de nunca ser lido pelas pessoas, mas que concede o poder da autoridade; e o walkie-talkie de doze anos, que graças ao seu peso e aos barulhos esquisitos e irritantes que solta ocasionalmente, me faz concluir que ele simboliza o peso e os incômodos do papel que me foi delegado. Sem esses dois itens, torno-me apenas mais um na multidão, e as pessoas me olham como um igual.

Com os dois itens de poder, andar na multidão desperta reações diversas, normalmente variando entre o temor e a procura. As falas mais ouvidas são da seguinte maneira:

"Minino, pára de fazer isso, o moço tá vendo!"

"Moço, onde é o banheiro?"

"Filho, se você não parar, o moço vai te bater, ein?"

[NOTA: este comentário é uma óbvia calúnia, pois só gosto de usar de violência contra alguns insetos indesejáveis, mas mostra bem qual é a imagem que as pessoas fazem d'O Moço.]

"Filha, pergunta praquele moço se é pra fazer desse jeito!"

"Moço, o que vai ter na semana que vem?"

"Desculpa moço, foi ele quem começou!"

"Ah, não pode fumar aqui? Desculpa moço, tou jogando o cigarro fora agora."

"Moço, meu irmão cortou o dedo, onde que é o médico?"

[Nota: ao ouvir a palavra 'médico', o irmão iniciou um berreiro aterrorizante. Fiquei desnorteado, enquanto o público em volta olhava como se eu tivesse cortado o dedo dele; este porém, não toma outra atitude além de olhar para mim por alguns segundos e voltar às suas atividades normais. A irmã, com toda a calma do mundo, olha pra mim de novo e diz:]

"Moço, meu irmão tem medo de médico, onde posso ligar pra minha mãe buscar a gente?"

Independente da resposta ou da atitude que tomo, as pessoas se mostram muito agradecidas, e seguem quase cegamente as orientações que dou - mesmo quando elas saem levemente erradas e são obrigadas a perguntar novamente para um outro O Moço ou uma A Moça. A aparência de autoridade sempre fala mais alto, e as pessoas se submetem com certa facilidade.

"O Moço" ideal não abusa de seus poderes - normalmente quem abusa deles é enviado para o tribunal popular nomeado "ouvidoria", e caso isso ocorra com certa frequência o indivíduo é destituído de seus itens de poder e, em certos casos, até mesmo de seu emprego.

A vida como "O Moço" é difícil, e cheia de informes e interrupções acidentais das atividades de crianças arteiras. Porém, a vida preservera, e nós, Moços e Moças, devemos continuar em suas funções sem falhar!
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Às vezes, acho muito estranho e difícil se acostumar com a desproporção existente entre a migalha de autoridade que um micropoder concedido por um crachá e um walkie-talkie dá sobre outras pessoas, e a disposição dessas mesmas pessoas a se submeterem a qualquer mané que tenha esses dois itens à vista: o que você diz é obedecido e só é questionado quando parece absurdo ou errado por algum motivo, e às vezes você nem precisa dizer nada para fazer com que as pessoas mudem seu comportamento - basta você prestar atenção e a pessoa perceber que quem está a observando é um funcionário do local.

Essa disposição à submissão a autoridade, por menor que esta seja, é algo realmente esquisito; mais estranha ainda é a possibilidade de abuso contida nessa migalha de poder. Chutaria que as teorias de Freud sobre repressão e sublimação devem explicar bem isso, mas não estou exatamente no clima para teorizações complexas sobre temas de questionável importância.

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