Sábado, Junho 19, 2010

Da Profundidade à Piada em Quatro Palavras

Cena: noite, estacionamento de uma faculdade. Festa junina acontecendo. Cinco amigos conversam entre si; dois deles à caráter. Estes dois são responsáveis pelo serviço de Correio Elegante do evento.

Entra uma menina na roda, que demanda os serviços dos carteiros elegantes. Vão e voltam, rapidamente, fazendo algumas piadinhas sobre o resultado do chaveco anônimo à distância; a cliente, agradecida e entretida com os comentários, decide puxar um pouco de papo com os caipiras de araque.

- Adoro correio elegante! Sabe, eu tenho uma amiga que diz que todas as suas paixões foram encontradas desse jeito, através de bilhetinhos a anônimos na festa de São João! Não é rômantico isso?

Todos da roda ouvem o comentário doce e alegre da moça. Parecem apreciar a ideia de uma formalidade da festa, normalmente usada para causar constrangimentos entre estranhos de aparências e trejeitos completamente opostos, servir a propósito tão nobre, cuja finalidade é a união profunda entre dois estranhos através de um bilhete entregue por um cidadão de chapéu de palha e bigode feito com lápis de olho. Profundo, de verdade.

Um dos membros da roda decide se pronunciar, em um tom ambíguo que se encontrava entre a jocosidade bem-humorada e a exasperação frente a um comentário ingênuo, mostrando que talvez ele tenha mergulhado de cabeça nessa profundidade, mas tenha encontrado o fundo dela cedo demais, ferindo sua metafórica cabeça de um jeito engraçado.

- Romântico?! Isso é deprimente!

Um momento de silêncio, e então risos - e ninguém sabe se foi por causa da frase, ou da maneira que a frase foi dita, ou por causa das duas latas de cerveja (média aproximada) que cada membro da roda havia consumido até o momento. De toda maneira, a solenidade do comentário anterior havia sido quebrada com um comentário de quatro palavras que não tinha muita reflexão sobre o tema.

A autora do comentário inicial parece um pouco confusa.

- Mas por que deprimente?

- Filha, essa sua amiga só consegue encontrar o amor uma vez por ano, dependendo da festa de São João e de gente com bigodinho de lápis para conseguir concretizar esse sentimento com outra pessoa! Depender de festa junina para amar e ligar-se a outra pessoa de maneira mais profunda é deprimente, não tem como questionar isso!

Mais risadas. Comprova-se uma hipótese: ranzinzice em pequenas doses é excelente para dar efeito humorístico a comentários de gente que, em outros contextos, seria considerada mal-amada.

Houve tentativas de remendar o argumento inicial através de filosofagens para fazer retornar a profundidade, mas já não tinha mais jeito: pelo menos naquela roda e por aquela noite, ela havia sido vencida pela piada.
=========================
Essa foi uma descrição, em forma de esquete literário, de um acontecimento real dessa semana que rendeu alguns momentos de felicidades saudosas com alguns amigos. Talvez tenha um pouco de carga ficcional em certas tintas, mas isso é só para marcar um pouco a minha visão subjetiva (e nem um pouco idônea) de como tudo transcorreu.

2 comentários:

Hugo Ciavatta disse...

Ehe, Mekarinho!
Como diz o outro, eu estava lá, e ri do seu comentário. Ri muito e nem tinha bebido. Seu mau humor inconfundível foi preciso, enquanto eu só tinha reparado no chapéu da moça.
Mas uma coisa me lembra essa história, "o nosso amor a gente inventa", do Cazuza, ou de alguém próximo, semelhante, enfim, não importa.
Mais do que depender da encenação peculiar de uma festa junina, com marmanjos de bigodes a lápis, correios elegantes de araque frutos de chavecos baratos numa noite qualquer (nossa, fui quase tão ácido quanto você, agora), o lance pode ser alguma coisa de memória e significado, no fundo, criados sabe lá por que misterioso motivo, ou pra fugir da melancolia diária, de qualquer modo, deprimente, como você lembrou, e que as pessoas insistem em repetir quase ciclicamente.
Tudo bem, ingenuidade da moça, e minha também, tentando "salvar" o comentário dela.
Enfim, a cena foi ótima, e rende história, isso é que vale!
Abraços

Thiago Aoki disse...

Mekaru em ótima forma...

Genious, mas o que prova, pensando em você como escritor, que o corpo está na festa, mas a cabeça em uma galáxia far far away...

Abraços...