"Preciso terminar isso até amanhã", pensou pela ducentésima quinquagésima sétima vez naquele dia.
O trabalho parecia não render já fazia alguns dias. Não podia se dar ao luxo de procrastinar: era aquele momento crucial em que postergava-se a vontade de postergar para que esta pudesse continuar existindo feliz e saudável entre um trabalho e outro. Ter períodos extensos de ócio, afinal, exigia momentos extremamente intensos e danosos de trabalho extenuante.
Cortara todas as possíveis fontes de distração: seu quarto apertado na pensão agora parecia gigantesco, tendo apenas o essencial para o trabalho intelectual. Rabiscou o mar de páginas e livros que cercavam a sua pequena ilha-colchão. Executou dezenas de cálculos na pequena calculadora. Os aromas de chá preto, grafite, tinta, papel e poeira inundavam o recinto. A máquina de escrever preenchia o ar com claques metálicos, alternados com o virar das páginas. Sentiu falta de um laptop, mas lembrou das horas perdidas por causa de jogos de cartas que só existem nos computadores e voltou ao trabalho.
O resultado de tamanho esforço mostrou-se rapidamente. Dois parágrafos em uma tarde tarde inteira. Faltavam dezoito páginas e doze horas para a data-limite.
Decidiu não gritar - a vizinha do lado já havia batido na porta três vezes para saber o porquê dos gritos e palavrões. Não podia perder minutos preciosos para tentar convencê-la novamente que não precisava daquele remédio tarja-preta milagroso pros estudos que furtara da tia.
Arrumou um buraco no meio de tudo que cobria seu colchão e autorizou-se a quinze minutos de descanso. Dormiu instantaneamente.
Sonhou ter saído de seu quarto por duas horas, respirado o ar levemente tóxico da cidade, ter vagado com os amigos por alguns momentos e, durante a terceira cerveja com coxinha daquele boteco na esquina, ter recebido uma epifania que, após sintetizada por duas horas, teria rendido as dezoito páginas que precisara para finalizar o trabalho.
A mensagem era clara: precisava voltar ao velho vício do lazer para terminar o trabalho.
Acordou motivado pelo sonho, decidido a fazer o que sempre deveria ter feito.
Saiu do quarto e bateu na porta da vizinha, para pedir as pílulas mágicas.
Devia ser a sétima vez que aquele sonho se repetia.
Nas outras seis em que decidira seguir o sonho à risca, tudo o que conseguira foram momentos felizes, mas que infelizmente não ajudaram a produzir mais.
Sexta-feira, Abril 30, 2010
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