Era tarde.
Tarde da noite. Não muito tarde na vida.
Bebia.
Muito.
Já não lembrava mais se bebia para reprimir seu espírito errático e rebelde com dúvidas e inseguranças etílicas, ou se bebia para libertar sua vontade animalesca e caótica das opressivas e ordenadas algemas da razão e do costume. Álcool, um dos grandes mistérios da humanidade: pode ser tanto o mais pesado dos grilhões quanto a mais desejada das chaves-mestras.
Sentiu-se irriquieto com esse dilema. Resolveu olhar o abismo de si mesmo, buscando respostas e tranqüilidade para o espírito.
Frente à possibilidade do abismo do auto-desconhecimento olhar de volta com os olhos demoníacos e enlouquecedores do arrependimento, das dúvidas e das dores, hesitou em continuar olhando.
Virou o copo de uma só vez.
Preencheu o abismo com uísque doze anos, e parou de temê-lo. Afogou seus demônios pessoais em uma avalanche de malte, e o alívio preencheu sua mente. Inexplicável: a busca do eu verdadeiro perdeu-se em um copo de vidro com gelo, como nas muitas outras vezes em que flagrou-se pensativo enquanto bebia.
Sorriu. Sentiu-se feliz em não encontrar uma resposta.
Começou a pensar no que estava fazendo. Encheu novamente o copo, instintivamente.
Continuou bebendo.
Já não se preocupava mais em saber se o litro semanal de uísque atraía ou afastava aquilo de que tinha mais medo.
Domingo, Abril 04, 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
2 comentários:
Gênio, já não tenho palavras pra descrever como vocês estão escrevendo bem. Esse conto seu foi o que eu mais gostei, e o mais acessível também. Acredito de verdade que estamos formando um grupo de escritores de alta qualidade, com ou sem sucesso.
Abraços!
Bom pra caralho!
Postar um comentário