Domingo, Abril 04, 2010

Conto - Exorcismo

Era tarde.

Tarde da noite. Não muito tarde na vida.

Bebia.

Muito.

Já não lembrava mais se bebia para reprimir seu espírito errático e rebelde com dúvidas e inseguranças etílicas, ou se bebia para libertar sua vontade animalesca e caótica das opressivas e ordenadas algemas da razão e do costume. Álcool, um dos grandes mistérios da humanidade: pode ser tanto o mais pesado dos grilhões quanto a mais desejada das chaves-mestras.

Sentiu-se irriquieto com esse dilema. Resolveu olhar o abismo de si mesmo, buscando respostas e tranqüilidade para o espírito.

Frente à possibilidade do abismo do auto-desconhecimento olhar de volta com os olhos demoníacos e enlouquecedores do arrependimento, das dúvidas e das dores, hesitou em continuar olhando.

Virou o copo de uma só vez.

Preencheu o abismo com uísque doze anos, e parou de temê-lo. Afogou seus demônios pessoais em uma avalanche de malte, e o alívio preencheu sua mente. Inexplicável: a busca do eu verdadeiro perdeu-se em um copo de vidro com gelo, como nas muitas outras vezes em que flagrou-se pensativo enquanto bebia.

Sorriu. Sentiu-se feliz em não encontrar uma resposta.

Começou a pensar no que estava fazendo. Encheu novamente o copo, instintivamente.

Continuou bebendo.

Já não se preocupava mais em saber se o litro semanal de uísque atraía ou afastava aquilo de que tinha mais medo.

2 comentários:

Thiago Aoki disse...

Gênio, já não tenho palavras pra descrever como vocês estão escrevendo bem. Esse conto seu foi o que eu mais gostei, e o mais acessível também. Acredito de verdade que estamos formando um grupo de escritores de alta qualidade, com ou sem sucesso.

Abraços!

bill disse...

Bom pra caralho!