Domingo, Fevereiro 28, 2010

Refluxo político

Ano de eleição, e as mesmas dúvidas voltam.

- Por que existe a visão extremamente popular da política enquanto maniqueísmo doente, que lembra a defesa de certas ideologias e teóricos tal como um torcedor defende o seu time que está na terceira divisão, sendo que nunca na história do planeta houve divisão extremamente clara entre as teorias políticas, políticos e afins?

Só conceitos como "esquizofrenia" ou "paixão mal-aplicada" leva gente a defender certos partidos e ideias no Brasil da maneira que se faz. Até parece que não conhecem a história dos partidos, e a dança ideológica que praticam para governarem. O atual DEM e o PMDB vêm à mente - a despeito dos interesses continuarem mais ou menos os mesmos, foram entortados e torcidos até não poder mais pra que os dois partidos pudessem fazer alianças proveitosas, que assegurariam o poder dos mesmos na câmara e no senado. Cadê a fidelidade ideológica? Cadê o maniqueísmo político dos comentaristas da Veja e da Caros Amigos? Cadê a separação clara entre dois lados?

É engraçado - os políticos atestam essa separação clara quando são entrevistados. Algum tempo depois, o partido muda todas as suas alianças para não perder espaço no governo, e atestam coisas totalmente diferentes, nomeando novos inimigos e coisas assim. Nas duas ocasiões, o eleitorado continua insistindo no maniqueísmo e na clareza ideológica.

Sempre foi assim - uma postura pública que atesta certos ideais, e uma postura prática que mostra que a política sempre foi muito mais pragmática do que idealista.

Disso tudo, só se tem uma certeza: Maquiavel está dançando o rebolation de maneira raivosa em seu caixão florentino.

- Eu acho muito engraçada a visão da política que a mídia em geral e algumas pessoas atestam: é praticamente um retorno à monarquia. Políticos vão e políticos vêm, e a ideia é sempre a mesma: presidente tal e seus asseclas patidários são diretamente responsáveis pela miséria intelectual, financeira e política do país. Somente na queda do presidente e de seu partido é onde existe o potencial pra mudar tudo e transformar o país em algo novo, revolucionário e democrático de fato.

Dói ver que as pessoas esquecem das outras esferas decisórias realmente importantes - o senado e a câmara, nas quais acontecem o grosso da política. Lendo algumas revistas e blogues, dá a impressão que o presidente é um monarca absolutista despótico, levando à cabo o seu poder de fazer tudo o que quiser após ser eleito e aparelhando todos os órgãos existentes com seus amiguinhos, restando à pobre coitada oposição atestar e constatar abusos, impotente.

Essa confusão, proposital ou não, entre democracia e monarquia diz muito sobre como anda a educação e consciência política do brasileiro, ou então só mostra como temos um bom caminho a percorrer antes de vermos qualquer melhora no quadro político do país.

6 comentários:

Fernando (morsa) Henrique Rovere de Godoy disse...

meks, muito bom o texto! fato as pessoas ignoram o poder legislativo! votam nos deputados e senaqdores só por obrigação, como se eles tbm num fossem importantes!

Paulo Yama disse...

Rebolation maquiavélico!

Hugo Ciavatta disse...

idem: "rebolation raivoso florentino"!

Cláudia Alves disse...

mekaru, adorei seu blog! não vou comentar nada especificamente, só para dizer que gostei muito de ler o que você escreve.
ah, e o conto "pascal e eu" é genial!

Thiago Aoki disse...

"Bota a mão na cabeça que vai começar: o Rebolation-tion"

Leandro disse...

Pera, mas há o que se esperar da política institucional burguesa? Onde ela poderia nos levar, a entrar pro rol de países desenvolvidos em crise econômica do capital globalizado?