Não ligava muito pra essas coisas de religião, como todo brasileiro. Em tese, era católico; na prática, queimaria no mármore do inferno por algumas centenas de anos graças aos pecados que praticava e não se arrependeria nunca por fazerem parte de seu repertório de pequenos prazeres da vida mundana.
Até o dia em que conheceu a Aposta de Pascal.
Sempre cuidadoso, achou-a muito interessante e decidiu retornar à igreja, deixando de lado o popularíssimo oxímoro-religião "católico não-praticante". Em seu raciocínio malandro, fazia todo o sentido - acreditar, independente de haver um pós-vida ou não, significava escapar do inferno, caso ele existisse. Os cultos, valores e ensinamentos não faziam muita diferença em sua vida, mas ele os via como os processos burocráticos que acabariam por levá-lo ao paraíso eventualmente.
E, um dia, ele foi atropelado enquanto passava pela rua.
E viu a luz no fim do túnel.
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Acordou em um susto, levantando-se bruscamente. Esperava ver as portas do céu católico, mas viu-se numa caverna, fracamente iluminada por tochas nas paredes, com um grande rio cinzento próximo dele. Um barco longo de madeira estava na margem, e uma figura alta, encoberta em um pesado manto negro parecia olhá-lo.
Resolveu quebrar o silêncio, mas o estranho o fez primeiro.
"Mortal, imagino que queira passar o Estige e ter o sono dos justos. Você apenas precisa pagar a sua última dívida - um óbolo pela travessia segura pelo rio das almas."
Não entendeu nada. O estranho pareceu perceber a não-compreensão.
"... Mais um herege, ignorante dos mitos de criação. Há muitos séculos que a sua estirpe interrompe de maneira infrutífera o meu descanso. O nome 'Caronte' não lhe diz nada?"
Continuou em silêncio.
Conseguiu ver a insatisfação do barqueiro, mesmo com o manto negro tornando essa tarefa algo impossível.
"Ainda bem que um de vocês decidiu ficar por aqui para ajudar. Ademir, oriente o homem."
Um careca de terno pareceu sair das sombras da caverna. Sua face austera mostrava cansaço, e seu tom de voz dava a entender que muitas eras haviam passado, mas que as palavras eram as mesmas durante todo esse tempo.
"Bem, é o seguinte. Nós erramos. E com 'nós', quero dizer 'nós, os membros das religiões abraâmicas'".
"Como assim?!"
"É bem simples - existe sim um além-vida. Mas ele não é o único."
"Ou seja...?"
"Isso significa que após a morte, o céu ou o inferno não são os únicos destinos. Pode-se ir para um dos dois, bem como o Jahanna e o Janat dos muçulmanos, ou pode-se ir para Valahalla dos vikings, para os Campos Elísios gregos, para o Diyu taoísta, o Yomi shintoísta, ou para o Naraka budista. Alguns vão parar no Grande Vazio, o pós-morte dos ateus e agnósticos - nos últimos anos, ele tem ficado cada vez maior. Tem gente que fica poucos segundos e volta, reencarnando. Outros vem e voltam para o mundo como espíritos, demônios e criaturas mitológicas. Você pode até parar nas Margens do Estige, como aconteceu com você, comigo e com muitos outros."
Ademir parou para respirar. Suspirou profundamente, vendo que seu novo companheiro estava um pouco desconcertado com essa revelação.
"Enfim... É isso aí. Acreditar em Deus não faz muita diferença - ao que parece, a escolha e o envio é aleatório, obedecendo critério aos quais, pobres mortais, não temos acesso durante as nossas vidas mundanas. A propósito, pra sair daqui, só pagando os óbolos pro Caronte; você acabará indo parar nos domínios de Hades, perto do fim do rio. Resolvi ficar aqui para dar uma força pra ele e todos aqueles que chegarem - a religião helênica sumiu faz muito tempo, mas continua aparecendo muita gente por aqui."
Pensou um pouco no karma budista do qual uma de suas namoradas hipongas lhe contou. Pensou nas punições que Deus concedia àqueles que tentavam Lhe enganar, como um pastor evangélico lhe contou uma vez. Pensou em tudo que poderia ter feito seu plano ter dado errado de maneira catastrófica - ele fora parar em um inferno, e o pior: não era nem ao menos o inferno cristão, nem mesmo aqueles infernos viajados e bem populares de Dante e Milton.
Pensou em como a Aposta de Pascal estava errada.
Sentiu um pouco de revolta consigo mesmo, com os deuses, com tudo. Usou a não-existência de tempo, cansaço, necessidades fisiológicas e afins no pós-vida para protestar incessantemente por horas, dias, semanas e tentar superar tudo aquilo que sentia.
A aleatoriedade nunca foi o seu evento cósmico favorito; era difícil lidar com ela, em especial após seguir uma religião que afirma constantemente a sua não-existência.
Demorou um pouco, mas até que aceitou bem essa ideia, segundo os padrões de seus mais recentes companheiros do pós-vida - não perdera muito ao entrar de cabeça no catolicismo, e sua fé não era grande o suficiente para que o sentimento de ter sido vítima de uma brincadeira de mau-gosto não o levasse a repensar todos os atos, palavras e demais ações investidas em nome de uma religião que dava certezas um tanto vazias.
Finalmente, pensou se Caronte aceitava moedas de cinquenta centavos feitas de níquel ao invés de óbolos gregos de ouro. Aceitava. Foi o primeiro passageiro do barqueiro da morte em alguns anos.
Do fundo de sua mente, desejou que Pascal tivesse reencarnado no mundo como uma pedra, ou qualquer coisa cuja existência era praticamente irrelevante, e que o impedisse de fazer provas teológicas furadas.
Quarta-feira, Janeiro 27, 2010
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2 comentários:
Depois eu é que sou acusado de densidade, ocultismo, ambiguidade, não sei quê, não sei quê... Deixa pra lá! rs
Pronto, agora já sei o que é a Aposta de Pascal, danadinho o sujeito, ein! Complicado o texto, Mekaru, só da segunda vez que li, consegui me situar, e depois que o titio google "me disse", do jeito dele, o que era a tal Aposta, me dei conta do sentido do texto de fato. Imagino que seja proposital! De qualquer forma, belo texto! Um conto pra leigos necessitaria de uma postura um pouco mais didática, como aquela de quando falou do Hegel. Mas a variação na escrita foi muito bem feita!
Deixa de preguiça e vê se escreve mais, aê!
Bom conto Stim! Mas então, e você, o que acha da aleatoriedade? hehe
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