Domingo, Dezembro 27, 2009

Fluxo de Consciência - 2009 Edition

É difícil escrever se sentindo meio obrigado a isso.

Mas bem, aqui ficam minhas linhas pro último post desse ano.

Me senti compelido a escrever, pra fechar o ano com doze posts, fechando o número de mais ou menos um pra cada mês. Obviamente, não consegui fazer isso de maneira satisfatória: atingir uma meta que não tem sentido algum, só pra conseguir uma significação arbitrariamente estabelecida por mim é muito mais difícil do que imaginei.

Gente que me conhece e já me ouviu reclamando provavelmente vai pensar: "Mas você é um dos que mais fala de arbitrariedades nos controlando, critica disso, e ainda se deixa levar?! Maldito hipócrita!"

É aí que tá - a maior parte das pessoas, sabe-se lá o por quê, faz críticas como se estivesse fora daquilo que critica.

Eu não - normalmente critico exatamente aquilo em que estou mais imerso, geralmente pra fazer humor auto-depreciativo, ou só pra expor algumas das minhas visões sobre o mundo mesmo.

Essa crítica de dentro do problema faz parte da maneira de encarar os problemas - implica em honestidade sobre aquilo que está acontecendo, um pouco de humildade pra não cair no velho mito do "crítico imune e acima dos pobres coitados cheios de problemas" e, o mais importante, que existe um problema e que você está bem consciente dele.

Isso sempre me incomodou um pouco. Pessoal da esquerda revolucionária falando dos outros como alienados pelo capital, mas não percebendo que estão imersos de maneiras que não perceberam nessa mesma alienação. Pessoal da direita e neoliberais reclamando do Estado gigantesco, da decadência de valores e da falta de autonomia individual, mas se aproveitando de benesses que só podem existir com esse mesmo Estado gigantesco para ganho próprio e praticar ações que limitam a autonomia individual de outrem e/ou ofendem de uma maneira ou outra os valores que tentam desesperadamente proteger. Vegetarianos que reclamam da selvageria ambiental que ocorre com a existência da indústria da carne, se obcecando com só uma das milhares de facetas da destruição ambiental que o homem causa por meramente existir da maneira que faz atualmente.

Enfim, a crítica hipócrita, que tem como pressuposto um crítico que observa tudo por cima, alheio dos problemas que critica, como se fosse um pequeno deus. Sei lá, isso me irrita bastante. Pelo menos quando critico estou bem ciente de que muito provavelmente estou imerso até o pescoço naquilo que estou criticando, de uma maneira ou de outra.

Bom, é isso. Minha inspiração acabou, e tenho de fazer as malas. Um bom começo de ano para vocês. Que 2010 seja tão bom quanto 2009 foi.

Domingo, Dezembro 20, 2009

Retorno

Bom,um mês de atraso, mas é isso aí: reflexões sobre a volta.

É engraçado quando deixamos lugares e voltamos algum tempo depois. A mente (a minha, pelo menos) funciona como uma câmera fotográfica - ela "congela" o lugar e todas as ramificações dele; na hora de voltar, chega a hora de comparar a fotografia com a realidade. Naturalmente, dá aquela tensão do que mudou e etc, o que leva a alguma ansiedade e exercícios de futurismo: o que mudou? O que continuou o mesmo? Como as responsabilidades esquecidas durante o tempo longe me atacarão, me tirarão o sono e me darão uma gastrite nervosa? Será que a distância matou laços, ou será que os fortaleceu?

Enfim, isso tudo descreve a série de perguntas que naturalmente surgem quando a maior mentira que nos contaram e em que temos de acreditar pra não cair na mais completa loucura (a estabilidade, se alguém estava se perguntando) nos é tirada momentaneamente e nos é devolvida algum tempo depois. Normalmente, espera-se que nada vai mudar; mas lá no fundo, as reflexões honestas e negativas que guardamos para nós mesmos são, bem, mais honestas: as coisas mudam, mesmo quando estamos longe.

Nem de longe quero dizer que isso é ruim; muito pelo contrário, são essas âncoras de estabilidade na realidade que acabam dizendo quem somos e como é a nossa vida; só sendo bem louco ou corajoso para se livrar de todas elas pra viver sem o medo de ter a estabilidade tirada de você. O problema é que, bom ou não, a angústia e ansiosidade vindas disso não são exatamente coisas que procuramos sentir ativamente. Pelo menos, não normalmente.

Mas divago. O ponto principal é: o retorno foi bem diferente disso tudo.

Na verdade, lembrou muito outros retornos que tive a lugares que nem deixei por tanto tempo assim: após chegar novamente, um banho e uma refeição e parece que nada mudou e que estamos prontos para agarrar a rotina pelo pescoço novamente. Em outra ocasião, em que fiquei distante por três meses, foi ainda pior: após voltar pra casa depois de tanto tempo longe, a primeira coisa que fiz após tomar um banho e comer foi... Ir à faculdade pra assistir aula de estatística, seguido de curso de francês.

É, na dureza, assim mesmo. Sem tempo pra chorar as lágrimas da saudade, gargalhar o riso da reunião, ou festejar as festas perdidas: não faziam nem duas horas que estava de volta ao país, e o qui-quadrado da estatística junto com o plus-que-parfait ocupavam a minha mente com alguma prioridade sobre todo o resto. Pouca, nenhuma dificuldade. Parece que eu tinha (re)nascido para fazer essas coisas com a maior naturalidade do mundo, não importando o que ocorreu antes - distanciamentos absurdos, revoluções políticas ou o armagedom bíblico.

E, bem, dessa vez não foi exceção. Não mesmo. Voltei, almocei, tomei banho, e fui pra aula.

Essa facilidade de retornar à rotina e ao querido-lugar-deixado-para-trás meio que destrói toda a poesia e importância emocional das ansiosidades e espera de dificuldades que construímos quando nos damos conta que estamos retornando; pra mim, o pior é que torna totalmente vazia a valoração que construí anteriormente sobre o que é o retornar e o choque interno que eu esperava que ele causaria. Também diz muito sobre como somos ensinados a pensar e se adaptar às situações que nos são postas, o que pode levar tanto a uma crítica quanto a um elogio do conformismo, dependendo de como você encara essa facilidade em retornar à rotina.

Claro que estou esquecendo o ponto mais legal de voltar, e que sempre senti, independente da facilidade de se conformar à rotina, do tempo longe, ou dos sentimentos momentâneos: matar saudades é extremamente satisfatório. Definitivamente vale a pena se ausentar, só para sentir as alegrias do seu retorno entre aqueles que a falta da presença e a presença da falta foram mútuas. É uma alegria ególatra e coletiva ao mesmo tempo. Difícil de explicar. Recompensador sentir.

Enfim...

O texto ficou meio confuso.

Mas é isso aí.