Bom,um mês de atraso, mas é isso aí: reflexões sobre a volta.
É engraçado quando deixamos lugares e voltamos algum tempo depois. A mente (a minha, pelo menos) funciona como uma câmera fotográfica - ela "congela" o lugar e todas as ramificações dele; na hora de voltar, chega a hora de comparar a fotografia com a realidade. Naturalmente, dá aquela tensão do que mudou e etc, o que leva a alguma ansiedade e exercícios de futurismo: o que mudou? O que continuou o mesmo? Como as responsabilidades esquecidas durante o tempo longe me atacarão, me tirarão o sono e me darão uma gastrite nervosa? Será que a distância matou laços, ou será que os fortaleceu?
Enfim, isso tudo descreve a série de perguntas que naturalmente surgem quando a maior mentira que nos contaram e em que temos de acreditar pra não cair na mais completa loucura (a estabilidade, se alguém estava se perguntando) nos é tirada momentaneamente e nos é devolvida algum tempo depois. Normalmente, espera-se que nada vai mudar; mas lá no fundo, as reflexões honestas e negativas que guardamos para nós mesmos são, bem, mais honestas: as coisas mudam, mesmo quando estamos longe.
Nem de longe quero dizer que isso é ruim; muito pelo contrário, são essas âncoras de estabilidade na realidade que acabam dizendo quem somos e como é a nossa vida; só sendo bem louco ou corajoso para se livrar de todas elas pra viver sem o medo de ter a estabilidade tirada de você. O problema é que, bom ou não, a angústia e ansiosidade vindas disso não são exatamente coisas que procuramos sentir ativamente. Pelo menos, não normalmente.
Mas divago. O ponto principal é: o retorno foi bem diferente disso tudo.
Na verdade, lembrou muito outros retornos que tive a lugares que nem deixei por tanto tempo assim: após chegar novamente, um banho e uma refeição e parece que nada mudou e que estamos prontos para agarrar a rotina pelo pescoço novamente. Em outra ocasião, em que fiquei distante por três meses, foi ainda pior: após voltar pra casa depois de tanto tempo longe, a primeira coisa que fiz após tomar um banho e comer foi... Ir à faculdade pra assistir aula de estatística, seguido de curso de francês.
É, na dureza, assim mesmo. Sem tempo pra chorar as lágrimas da saudade, gargalhar o riso da reunião, ou festejar as festas perdidas: não faziam nem duas horas que estava de volta ao país, e o qui-quadrado da estatística junto com o plus-que-parfait ocupavam a minha mente com alguma prioridade sobre todo o resto. Pouca, nenhuma dificuldade. Parece que eu tinha (re)nascido para fazer essas coisas com a maior naturalidade do mundo, não importando o que ocorreu antes - distanciamentos absurdos, revoluções políticas ou o armagedom bíblico.
E, bem, dessa vez não foi exceção. Não mesmo. Voltei, almocei, tomei banho, e fui pra aula.
Essa facilidade de retornar à rotina e ao querido-lugar-deixado-para-trás meio que destrói toda a poesia e importância emocional das ansiosidades e espera de dificuldades que construímos quando nos damos conta que estamos retornando; pra mim, o pior é que torna totalmente vazia a valoração que construí anteriormente sobre o que é o retornar e o choque interno que eu esperava que ele causaria. Também diz muito sobre como somos ensinados a pensar e se adaptar às situações que nos são postas, o que pode levar tanto a uma crítica quanto a um elogio do conformismo, dependendo de como você encara essa facilidade em retornar à rotina.
Claro que estou esquecendo o ponto mais legal de voltar, e que sempre senti, independente da facilidade de se conformar à rotina, do tempo longe, ou dos sentimentos momentâneos: matar saudades é extremamente satisfatório. Definitivamente vale a pena se ausentar, só para sentir as alegrias do seu retorno entre aqueles que a falta da presença e a presença da falta foram mútuas. É uma alegria ególatra e coletiva ao mesmo tempo. Difícil de explicar. Recompensador sentir.
Enfim...
O texto ficou meio confuso.
Mas é isso aí.
Domingo, Dezembro 20, 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
1 comentários:
Acho que esse é o melhor texto do ano do seu blog.
Postar um comentário