(Versão resumida em negrito, lá embaixo, pros mais preguiçosos.)
O 11/9 fará oito anos, e começaram a pipocar cartazinhos na faculdade com os dizeres "OSAMA BIN DAY - VENHA COMEMORAR CONOSCO!", acompanhado com um ou outro bordão sobre como isso aí foi legal e merece ser comemorado. Essa tendência de achar que se deve comemorar o 11/9 não é exclusividade do IFCH, porém - redutos tidos como anti-americanistas também acham a parada legal e tudo, e provavelmente estão organizando suas próprias festinhas pra relembrar com muito júbilo essa data especial.
Mas... Comemorar o que? Vamos fazer um balanço do que aconteceu até então.
COISAS BOAS:
- Errr... Aceito sugestões. Não consegui me lembrar de nenhuma, sério.
COISAS QUESTIONÁVEIS:
- Os EUA sofreram o maior ataque em território nacional da história. Tem gente que acha legal os prédios terem caído e tudo visto que os EUA perderam a pecha de intocáveis, mas normalmente quem comemora são pessoas que não perderam conhecidos nos prédios, nos aviões, nos entornos atingidos pelos restos mortais dos dois prédios, nos combates entre soldados, nos atentados posteriores ao ataque, nas prisões ilegais dos EUA e em outros lugares e situações que, direta ou indiretamente, se associam ao atentado.
- Após oito anos tumultuados, cheios de mortes, gastos absurdos e aumento da paranoia nacional e internacional, George W. Bush sai queimado como o presidente fundamentalista cristão pró-armas que arrastou o país pra duas guerras que, provavelmente, serão perdidas por causa de desaprovação esmagadora do público.
Pessoalmente, acho que tem maneiras menos custosas de apontar certos indivíduos como motivo de vergonha alheia do mundo inteiro. Pode-se dizer até que é um exagero que, para desmoralizar um sujeito, precise-se de duas guerras, inúmeras mortes, aumento insano na já absurda produção mundial de armas e o aumento de tensões entre duas metades do globo. Chega até a ser ridículo (e desnecessário) se você pensar bem.
COISAS RUINS:
- Depois do atentado, nunca se viu tamanho crescimento do fundamentalismo islâmico e, por extensão, das barbaridades que foram praticadas em nome dele. Se antes os mais fanáticos o "Ocidente Corrupto" era citado vez ou outra e atacado com pouca frequência, depois do atentado a ideia que ficou é: se a gente conseguiu uma vez, conseguiremos de novo!. E dá-lhe crescimento absurdo dos índices de ataques suicidas no mundo inteiro.
Olhando um pouco pra trás, a impressão que fica é que em uma década tivemos mais atentados terroristas de todos os tipos do que dos anos 70 pra cá. Por que escolhi os anos 70 como parâmetro? Bem, foi neles que fica mais saliente o surgimento e ascensão de linhas islâmicas fundamentalistas, que não hesitam em se utilizar da violência pra fazer valer a palavra do Corão contra os porcos ocidentais que invadiram suas terras e começaram a destruir seu modo tradicional de vida.
- George W. Bush, presidente patrocinado majoritariamente pela bancada armamentista da indústria dos EUA durante o processo eleitoral, finalmente achou a desculpa perfeita para inflar o orçamento da Defesa (satisfazendo as urgências de seus patrocinadores), instituindo a paranoia e a xenofobia como mais novos valores condutores das ações dos americanos, causando o recrudescimento da política externa norte-americana e (o pior de tudo) dando belas justificativas para intervencionismo militar em dois países que supostamente seriam os dois grandes polos terroristas do mundo.
O mundo só tem a perder quando o país mais relevante política e economicamente do mundo inicia uma política pesada de militarização e intervenção armada em outros países. Isso abre precedente para outros países adotarem medidas semelhantes; como resultado, algo nem um pouco divertido - mais armas pra nos matarmos por aí, mais justificativas para carnificinas se iniciarem e mais dinheiro sendo investido em instrumentos de assassínio ao invés de coisas que possam melhorar a convivência entre as pessoas.
Fica difícil falar em paz e mundos melhores quando se vê que o mundo está mais preocupado em gastar com brinquedos mortíferos do que em educação ou meio ambiente.
- Em 2001 (Afeganistão) e 2003 (Iraque) iniciam-se duas guerras de combate ao terror. Duas guerras em que os ganhos contra o terrorismo são extremamente questionáveis, e que são mais conhecidas pelos enormes gastos humanos e materiais do que por possíveis benesses que podem conceder ao mundo quando finalizadas. Como acompanhamento, há ainda a possibilidade da região se tornar um barril de pólvora ainda maior - a instabilidade com os americanos nos países é muito grande, gerando conflitos entre pró- e contra-ocupação e polarizando populações que, segundo a propaganda americana, deveriam estar agradecendo por terem sido libertas de tiranos; com a saída deles, só com a ajuda da Mãe Dinah para saber se os dois países vão se estabilizar ou se autodestruir em guerras civis causadas inicialmente por seus "salvadores".
- A xenofobia cultural contra os muçulmanos se acirrou. Pintados por setores mais conservadores (e anti-muçulmanos) da mídia como demônios sem coração, movidos por um livro cheio de ódio e violência, acabaram por sofrer uma estigmatização ainda maior de um ocidente que já era relutante em aceitá-los graças a diferenças culturais que datam, no mínimo, das Cruzadas. Esse ódio, invariavelmente, acabou por abastecer ainda mais o fundamentalismo islâmico, gerando ainda mais justificativas para ações violentas contra o ocidente. Saem todos perdendo: os estigmatizados, que não tem culpa de existirem radicais em sua religião/etnia, mas são considerados culpados mesmo assim; e aqueles que estigmatizam, que vez ou outra sofrem atentados e parecem completamente ignorantes de sua parcela de culpa nesse processo.
COMENTÁRIO:
- A gente vê que a espécie humana é bem desprezível quando vê membros dela comemorando a própria autodestruição. Em especial, quando essa autodestruição acontece com gente que esses membros provavelmente não conhecem e nunca conhecerão em suas curtas vidas.
E QUEM TEM MOTIVOS REAIS PRA COMEMORAR ISSO TUDO?
Bom, tem gente que literalmente vive da pimenta jogada nos olhos dos outros.
- Setor da saúde em geral. Feridos em combate normalmente exigem gastos desumanos em saúde para continuarem funcionando como seres humanos comuns após, digamos, perderem o fígado, os rins ou as pernas em combate. Os muitos portadores de stress pós-traumático que vão voltar para as suas casas assim que as guerras acabarem demandarão muitos psicólogos, psiquiatras, sanatórios e Prozac para terem uma chance mínima de se reintegrarem a sociedade - isso considerando que não vão se matar antes de gastarem todo esse dinheiro em programas de recuperação de sanidade. E a ajuda humanitária às regiões mais afetadas pela guerra, invariavelmente, demanda toneladas de remédios (muitas vezes caros) para os pobres coitados que podem morrer de infecção após tomarem um tiro, perderem uma perna ao pisarem numa mina ou tomarem água contaminada por metais pesados provenientes de munições, explosivos e outras coisas pouco simpáticas.
- A indústria da morte - nomeadamente, cemitérios, fabricantes de caixões, guirlandas de flores, buffets alimentícios especialmente planejados para cerimônias post-mortem e demais serviços relacionados a enterrar alguém. Muita gente morre em guerras, sabiam disso? E normalmente as famílias que tem a sorte de receberem de volta o cadáver de seus entes queridos (muitas não recebem, graças ao dano recebido pelas armas que torna os corpos pouco identificáveis) gostam de gastar dinheiro para fazer uma cerimônia de enterro decente. Obviamente, esse dinheiro gasto com alguém morto vai pro bolso de alguém, que deve estar se divertindo com essa grana.
- Pessoas que não consideram muito as reais extensões que o maior atentado terrorista do mundo (e tudo que vem após ele) pode ter sobre a sua vida e a vida dos outros. Essas pessoas raramente ganharam algo de concreto com o 11 de setembro - provavelmente, só o schadenfreude ocasional. Bem, às vezes a vida é tão miserável que as pessoas se divertem com qualquer coisa. É mais pra ter pena do que ficar bravo.
CONCLUSÃO (E VERSÃO RESUMIDA DO TEXTO)
A chance é que provavelmente você leitor tenha mais a lamentar do que a comemorar, caso relembre do 11 de setembro. Aos felizardos que tiraram alguma coisa disso tudo, parabéns - você provavelmente é minoria no mundo. Ao resto, baseiem-se no exemplo dos colegas que se beneficiaram e aprendam a tirar felicidade da desgraça dos outros - se tem gente que consegue comemorar o maior desastre geopolítico do começo do século XXI, você provavelmente também consegue rir de tragédias, basta se esforçar.
Quinta-feira, Setembro 10, 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
Eu sei de uma coisa boa!
Eles esqueceram, por um momwnro, da gente....
Realmente, entre os inúmeros pontos levantados, o que considero mais triste é esquecer as milhares de pessoas inocentes que morreram neste atentado...
Mekaru, foi um dos melhores textos que li sobre o 11/09. Parabéns!
Eu acredito na bomba atômica e em tragédias como fator catalizador mínimo para que possivelmente as coisas mudem, e além disso, possivelmente faça as pessoas botarem a cabeça pra pensar.
Porque fazer juízo de valor tão drástico apenas porque algumas milhares de pessoas morreram? Não morrem todos os dias, pelos mais diversos motivos, desde os mais banais até os motivos mais "políticos e importantes" ?
Creio que não deva-se exaltar a vida a todo custo como um elemento para considerar o 11/09 apenas um evento lamentável, mas sim como algo que nos mostra um novo horizonte geopolítico que pode ser o início de um movimento de saída de uma apatia pasteurizada da pós-modernidade, do cinismo contemporâneo.
Logo, como uma pequena bomba atômica, não vejo o 11/09 como algo necessariamente ruim. Talvez, necessário para fazer com que a história volte a correr, para além de meios ditos "democráticos", num mundo em que essa palavra está cada vez mais desgastada.
Postar um comentário