É fato facilmente constatável: grande parte do pensar do século XX esforça-se em comparar e tentar relacionar vida e arte. Muitas dessas teorias remetem ao teatro, falando de papéis sociais/políticos que devem ser seguidos, da beleza de ser o ator do teatro da vida ao invés de um mero espectador, como transformar a vida em uma obra de arte constante é uma cura pra crises existenciais, personagens de teatro/cinema/música/livros/desenhos animados sendo utilizados como referências para construir um savoir-vivre e muito mais.
Esse pensar é realmente muito bom dentro da oposição "espectador x ator": de fato, poder agir ao invés de meramente assistir passivamente o desenrolar das coisas é sempre muito melhor; a sensação de poder fazer as coisas de fato é melhor do que ficar anestesiado e contemplativo, e o tornar-se ator acaba prometendo e muitas vezes dando um pouco mais do que a mera satisfação aborrecida da inação. Fora que o papel de entretenimento da arte é vital para que o espírito seja acalmado e tenha uma pausa do massacre cotidiano que sofremos.
Mas...
- Alguém aí lembra que os atores tem papéis a seguirem, sendo obrigados a segui-los à risca, raramente podendo ir além do que esses papéis propõem, e graças a essa relação de obrigação com os papéis eles não diferem em nada dos espectadores no que diz respeito a exercer sem questionar uma determinada função (os atores seguem seus papéis cegamente, da mesma maneira que cabe ao espectador ficar de boca fechada e apreciar o espetáculo até o seu fim)?
- Não é engraçado como os personagens de todas as obras que apreciamos não conseguem ir além de si mesmos, restringindo-se de maneira fatal ao papel que o autor lhes relegou durante a sua criação, e que mesmo que surjam como figuras revolucionárias, contestatórias ou subversivas, elas só estão seguindo um papel do qual não podem se desvencilhar, de maneira similar aos atores?¹
- Mesmo ignorando essa dominação do papel, não é interessante como que somos muito mais atores do que pensamos, já que nos submetemos a certos papéis sociais, políticos, econômicos e etc. sem questionar para viver, da mesma maneira que os atores interpretam Hamlet ou o Pescador Parrudo da novela para conseguirem colocar comida na mesa?
- Por que "transformar a vida em arte" normalmente é sinônimo de "finja de alguma maneira que você não tem problemas", quando na real a arte é normalmente feita por gente doente da cabeça que encontra nela uma maneira de exorcizar seus demônios pessoais - ou seja, é a síntese material de problemas psicológicos e sociais do autor, algo que a princípio deveríamos manter à distância caso quiséssemos seguir à risca esse negócio de "transformar a vida em arte" no caso de se desejar uma vida um pouco mais graciosa e menos neurótica do que aquela que temos no cotidiano?
Pois é, talvez esse negócio de "arte como libertação" precise ser repensado e superado. É hora de pegar as pás, pois existem autores que já pensaram nisso mas ficaram meio de lado: desenterrar Benjamin, Adorno e talvez o Debord é um imperativo para nos libertarmos de uma concepção de arte que aprisiona de forma sutil ao invés de nos emancipar.
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¹ - Explico melhor. Não é muito difícil perceber após algum esforço que o papel dos personagens normalmente resigna-se à aceitação e incorporação profunda de algum dos arquétipos de Jung pro comportamento, e raramente o personagem supera de alguma maneira os arquétipos que lhe são jogados. O personagem-rebelde existe para mostrar sua rebeldia e nada mais, e isso acontece de maneira similar com o cínico, com o aconselhador, com o bastião da moral e com o paladino da justiça; aqueles que mudam de personalidade e ações no decorrer da obra meramente trocam de um papel por outro, raramente mesclando ambos e quase nunca indo além dos novos papéis que lhe foram delegados; em resumo, o comportamento dos personagens às vezes é de um simplismo tremendo, orbitando somente em torno de duas ou três características e raramente se distanciando delas, uma verdadeira pessoa-caricatura (ou um tipo ideal weberiano, para aqueles que conhecem um pouco de sociologia) que se define a partir de alguns elementos de personalidade inalteráveis e inescapáveis, como uma determinação comportamental gravada em pedra.
Sexta-feira, Julho 17, 2009
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2 comentários:
Eu até concordo com a inversão de sentido do "transformar vida em arte", quando a expressão é utilizada como auto-ajuda. Mas também tem outra questão que você poderia falar sobre que é a arte contemporânea hiper multi abstrata, na qual ela desloca-se de toda a vida, perdendo o sentido, muitas vezes no mero intuito de se mostrar descolada..E aí, em um borrão ficamos procurando nada, a ponto de quadros feitos por um elefante serem contemplados por grandes "colecionadores de arte contemporânea" sem que sequer soubessem que se tratava de um elefante e que aquilo não fazia o menor sentido...Tudo bem não liitar a arte, mas tê-la como transformação, como indiciavam os autores que você citou, vai, na minha opinião no sentido contrário do que vem sendo feito...
Abraços
completando: sendo feito pelos meios dominantes do campo artístico.
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