Era uma vez um rapaz.
Era considerado frio e insensível; na realidade, só era um pouco mais retraído do que o normal ao mostrar sentimentos. Tinha um certo problema com isso, mas procurava melhorar à medida que o tempo passava.
Viajou para longe em certa ocasião. Fez grandes amigos entre completos desconhecidos, foi tratado como um filho por aqueles que o hospedaram, seu lar temporário o proveu ricamente em todos os aspectos possíveis. Foi verdadeiramente feliz, e não hesitava em praticar os pequenos atos e costumes destinados exclusivamente a mostrar isso.
Mas o problema da frieza e insensibilidade acidentais persistia um pouco, apesar de tudo, ainda que em escala menor. Os novos companheiros achavam-no apenas um pouco mais sério do que as outras pessoas, na mais negativa das visões sobre ele; ficavam felizes e satisfeitos quando ele quebrava a seriedade para gargalhar de maneira descontrolada, mostrar nervosismo ou fúria: eram visões raras, e tinham o brilho inconfundível e atraente das emoções liberadas sem quaisquer barreiras, da maneira que somente aqueles que as guardam por muito tempo conseguem mostrar. A imagem de insensibilidade começava a perder algumas batalhas, sinalizando o início de sua eventual derrota.
E então chegou o momento da partida. Um dia antes dela acontecer, a felicidade dos bons momentos transformou-se na angústia de partir e na nostalgia antecipada, como ela sempre fez e sempre fará; evidentemente, tendo em mente a felicidade do rapaz, a angústia sentida foi imensa, forte, avassaladora. Ele não aguentou, e explodiu em lágrimas enquanto guardava seus pertences e as lembranças dentro de sua mala. Deixou seus olhos se tornarem carmesim, liberou lágrimas o suficiente para ensopar completamente o rosto, soluçou loucamente; no fundo de sua mente, algo dizia que esse processo involuntário de auto-mutilação acalmaria seu espírito angustiado e cheio de saudades daquilo que nem ao menos terminou.
No corredor da casa, fora encontrado pelo seu anfitrião. Um tanto intrigado e um tanto chocado pela visão levemente deprimente de seu hóspede, ele não hesitou a perguntar:
- Oh... Tudo bem com você?
- Ah, tudo, eu... - Disse o rapaz, enquanto secava o rosto com as mangas de seu suéter e tentava disfarçar os soluços. Ele foi interrompido pelo seu anfitrião, que perguntou com um tom de voz solícito e gentil:
- É uma crise alérgica por causa do gato? Que azar, você não teve problema nenhum com ele durante um mês e justo no seu último dia, a alergia te ataca!
A gentileza e a preocupação daquelas palavras contrastavam violentamente com a brutalidade e insensibilidade completamente acidentais dessa última afirmação, em uma contradição tão gigantesca que o rapaz simplesmente parou de fazer tudo que estava fazendo somente para começar a rir do absurdo daquela situação.
A imagem de frieza e insensibilidade ganhara mais uma batalha. Ela se vingara, satisfeita.
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Baseada em fatos reais.
Segunda-feira, Abril 27, 2009
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2 comentários:
to achando tudo meio auto-biográfico rsss
Gato filhadamãe!
(aposto que era francês)
:D
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