Domingo, Outubro 12, 2008

Diálogos Honestos que Eu Gostaria de Ter

Entrevistado da semana - L., um rapaz alternativo honesto e sem vergonha de parecer pragmático - ou seja, uma ficção das mais fantasiosas.

- Ei, vem cá.

- Oi.

- Você se diz alternativo. Mas alternativo a quê?

- Sei lá. Isso não importa. O importante não é questionar os porquês de ser alternativo ou o porquê desse rótulo ter esse nome; o importante é parecer e agir como um, sempre adotando o discurso de "só assim posso expressar decentemente minha individualidade: sem as amarras da cultura mainstream!".

- ... Ah, certo. Me diz, por quê você não perde oportunidades de enfiar referências da cultura alternativa em suas falas? Tá, legal saber que você sabe de coisas legais que não fazem sucesso por causa de falta de divulgação, mas tá começando a torrar a paciência esse negócio de "ó, isso não é novo, o Godard já fez muitos anos antes desse cara aí" e "ah, Panic! At the Disco era melhor quando era indie ainda!" ou ainda "cinema japonês/coreano é mainstream demais, meu negócio são os iranianos!"!

- Eu estou em competição com outros "intelectuais" alternativos, na qual o número de citações positivas a livros/filmes/músicas/peças obscuras e o número de comentários condenando o que está na moda contam pontos no ranking mundial do pensador indie, com o objetivo de ser sempre o mais alternativo possível no que diz respeito a seus gostos. Estou também no mais novo programa Visa de milhagem intelectual, no qual cada colocação desse tipo que você citou representa 0,1 ponto a mais no meu QI, segundo esse programa. Se eu ficar dois dias sem fazer uma citação desse tipo, perco tudo o que ganhei até agora.

- ... Hmn, então você está competindo com outros alternativinhos pra ver quem é o mais obscuro entre vocês, e você acha que citar essa galera desconhecida toda te faz parecer mais inteligente. Mas fala a verdade, você só tá com medo de começar a gostar das coisas que estão na moda e perder todo esse estilinho "olha, eu não sou medíocre e afogado no mainstream, eu sou alternativo e tenho senso crítico pra recusar tudo que está na moda!", não é.

- Não, essas são as garotinhas inseguras em relação a si mesmas do movimento alternativo, que acham que abraçando a cultura alternativa com fervor estão recusando a cultura mainstream que as considera bizarras e feias. Eu só tô nesse barco pra pegar as melhorezinhas dessa meninada toda. E, é claro, tenho de adotar esse discurso pra não ser rechaçado como um "traidor do movimento" ou qualquer besteira dessas.

- ... Ah, ok. Mas... Se conformar assim à cultura alternativa não é tão burro e carente de senso crítico quanto a conformação ao mainstream? Você só escolheu a maneira pela qual você vai afogar seu senso crítico e quais são os objetos e maneiras de viver que vão guiar e dominar tua vida! No final, você não se libertou de nada e continuou aprisionado a regrinhas predeterminadas que limitam a sua individualidade de alguma forma!

- Bom, é isso mesmo. No fundo, eu só escolhi as algemas que eu queria nos meus pulsos, e algum motivo bem besta pra me achar diferente e melhor que uma boa parcela da população. Mas não conta pra ninguém, ok?

- ... Tá bom então. Viu, você ficou sabendo que Death Cab for Cutie entrou no top 10 da Billboard ontem?

- Traidores do movimento... Vou queimar os CDs deles agora só pra parecer mais alternativo do que já sou!
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Fiz minha parte, Paulão. Agora cumpra o trato e escreva a sua crítica também!

4 comentários:

Brubs disse...

Tem gente que se algema, mas não lembra mais o porquê por já estar tão acostumado.
Esse aí não.

Indie tá meio mainstream ultimamente. ;D

Eu acho um saco esse monte de rótulos. Talvez porque eu não saiba rotular nada.
Já perdi o raciocínio.

bia disse...

O importante é se enquadrar dentro de um grupo. Pra nao se sentir isolado. Pra nao se sentir diferente demais.
E, lógico, comer as melhores ovelhas dentre o rebanho!

Gostei da metáfora das algemas, Karu! E da sua camiseta da C&A!
=)

mauricio-caetano disse...

Tirando a parte da honestidade, esse indie é o desvio padrão, mas no mundo só existe as excessões

Harry disse...

Houve uma época que eu queria fazer um grupo de estudo de Sartre, não para entender o maluco, mas para poder vomitá-lo sobre as culturetes e pegá-las.

Não tanto pelas culturetes, mais pela farsa mesmo.