Parte um de uma série que, caso eu esteja certo quanto às minhas estimativas de vontade de escrever, terá quatro ou cinco partes. A proposta é: pegar algum evento de alguns anos atrás, relembrar como que aquilo ocorria, e verificar o quão cruel foi a passagem do tempo para esse acontecimento específico.
Comecemos com uma das coisas mais impactantes da vida universitária: os primeiros momentos de minha vida de bixo em relação ao Movimento Estudantil. Sendo de um instituto de humanas, invariavelmente esse é um elemento que interfere muito na sua vida, especialmente pra gente como eu que teve o primeiro contato com ele só depois de entrar na universidade.
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Há quatro anos, o que era legal na unicamp em relação ao movimento estudantil era ver uma calourada do Instituto que se dizia a favor da Resistência Iraquiana e contra o Imperialismo no Oriente Médio, e um DCE que encabeçava lutas absurdas como "não ao cartão universitário, esse ataque frontal das PPPs contra a soberania da universidade pública!" ou "Por mais quatro bandejões no Campus, senão não conseguiremos comer em nenhum horário sem enfrentar antes filas de duas horas!".
Tudo isso com uma seriedade doente, claro - questionar se uma calourada anti-Bush de um instituto de humanas de uma universidade do interior de um país de terceiro mundo teria relevância no contexto geopolítico da Guerra do Iraque era coisa de reaça maldito, e questionar se a solução pras PPPs do campus se encontraria via recusa e destruição dos cartões que a PPP trouxe te tornava um inimigo automático para o movimento. Questionar a utilidade de mais quatro bandejões no Campus? Você REALMENTE quer ser rechaçado pelos revolucionários do campus, não é?!
Obviamente, trazer para os dias de hoje esse tipo de proposta para o ME como algo sério é pedir pra tomar porrada dos membros dele - não apenas ele se encontra desprestigiado, como não dá pra fazer seriamente coisas como "Campanha do DCE a favor da resistência iraquiana" ou "Quebrem seus CUs em protesto contra PPPs dentro da unicamp" sem chutar o pobre cachorro morto mais pra baixo ainda.
Se tem uma coisa muito boa que a ausência de auto-crítica do ME e a falta de noção desse mesmo movimento deixarão para o futuro, são essas anedotas (tem coisa muito pior e muito mais engraçada, como as palavras de ordem mais absurdas do mundo e algumas assembléias que causaram situações realmente interessantes e pouco usuais). Ainda que bem-humoradas, essas anedotas mostram a tragédia que marca o ME: muita boa intenção, ainda mais idealismo cegante que dá origem a coisas absurdas com as que citei, e a total ausência da auto-critica realista acerca daquilo que se fará. Infelizmente, não há boa vontade no mundo que impeça o dano que os outros dois elementos causam sobre a imagem e sobre a efetividade das ações desse coletivo.
Pro bem ou pro mal, o ME está de ressaca após o ano passado, que foi marcado por greves e ocupações de sucesso marginal e muita queimação de filme do setor mais revolucionário da universidade, aumentando ainda mais a apatia e antipatia da galera não-revolucionária em relação a ele. Entra-se em um período de maior reflexão antes de agir, o que é bom pra dar mais seriedade; infelizmente, diminui-se substancialmente a quantidade de material que renderá muitas anedotas, piadas e lendas no futuro próximo.
Quarta-feira, Setembro 24, 2008
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4 comentários:
O seu post (e a freqüencia com que você posta no seu blog) me incitou (também por me encher de vergonha pelo semi-abandono do meu blog) a terminar um texto que eu comecei a escrever há 6 meses (mais precisamente no dia 22 de fevereiro), chamado Um homem à frente de seu tempo.
Então vá lá testemunhar que eu postei, pare de reclamar dizendo que eu não posto mais e põe a porra do meu link no seu blog, porque o link do seu já tá no meu, seu blogueiro desleal!
Mesmo quando o ME tem reivindicações palpáveis — e no caso da greve do ano passado, realmente importantes — o ME peca (mais adequado seria "se fode") por suas táticas copiadas (e coladas) de movimentos operários sei-lá-de-que-década sem a mínima adequação para o contexto presente (falo de uma adequação mais à natureza da situação do que a seu tempo), parando os institutos desinteressantes à tão odiada iniciativa privada em protesto ao corte de verbas para aqueles, deixando que todo o resto da universidade, que é justamente a parte que interessa ao capital privado, continuasse funcionando normalmente, dando mais um passo em direção a extinção destes cursos desprivilegiados.
A ocupação da DAC, apesar de ter sido desorganizada e desesperada, foi a única ação que poderia dar ao ME algum poder de barganha naquela situação, mas tal ação foi abalada pela sua hipocrisia (e, arriscando-me pela filologia, dando à palavra o sentido de algo como "pouca crítica", refiro-me não a uma falta moral, mas uma deficiência intelectual) de se manter agarrado aos dogmas da democracia e da unidade da "classe estudantil" enquanto manobravam as assembléias para conseguir prolongar a ocupação, já que sabiam que a parte majoritária da "classe estudantil" desejava a volta do funcionamento normal da DAC.
Infelizmente a minha então preguiça e dificuldade de expressão me impediram de expor a minha opinião e conquistar o ainda almejado ódio do ME.
Só pra frisar: quando digo que é hipocrisia do ME se agarrar ao dogma da democracia e da unidade da "classe estudantil" e ao mesmo tempo manobrar assembléias, não digo com o intuito de defender a democracia, mas muito pelo contrário, de defender uma posição arbitrária e agressiva do ME.
Afinal o ME não recebe apoio ou simpatia popular quando defendem os ideais da revolução burguesa francesa, pois seus atos nem mesmo chegam ao conhecimento do vulgo. Sendo assim, parece-me muito mais vantajoso ter o ódio da população e, através dele, obter mais visibilidade e, conseqüentemente, força.
Sempre dá pra começar algum movimento do tipo "bandejão a 1,99" e dizer que não vai ter fila.
Mas as pessoas vão xingar quem tiver essa idéia, ao invés de rir.
Eu achava que era tudo TÃO diferente quando eu cheguei na Unicamp.
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