Quinta-feira, Junho 26, 2008

Conto - Inadequação

O silêncio estava incomodando os dois homens. Buscando quebrar o gelo, o jovem lançou a primeira frase:

- ... E então, o que o senhor acha da economia do país? Não é uma vergonha como esses caras do ministério tratam a inflação?!

O homem, em uniforme azul, deixou de mexer com a sua chave inglesa, saiu debaixo da pia e olhou com um pouco de desdém para o jovem de camisa azul, gravata vermelha, mangas arregaçadas acima dos cotovelos, calças sociais e muita água nos sapatos e nas roupas. K se deu conta que não era somente a água de um cano estourado estragando seus sapatos italianos que o deixara embaraçado naquela hora. Percebendo o desconforto, o encanador sorriu, timidamente.

- Dotô, sô humilde. Essas coisas de economia... De inflação... Eu num sei nada não! Desculpa, mas só vou conseguir ovir o sinhô... Num garanto que eu vá sabê respondê!

O homem se virou novamente para a sua atividade, enquanto assobiava uma música pouco familiar. O jovem tentou balbuciar algumas palavras, mas não conseguiu.

K se deu conta que tinha um problema em mãos, e que talvez fosse um daqueles problemas insolúveis que o incomodava e comia pelo menos três horas da madrugada antes dele dormir.

Sua carreira até então tinha sido brilhante. As escolas mais caras que o dinheiro de seus pais podia pagar. Intercâmbios, escolas de línguas, cursos de produção artística, escola de culinária, treinamento clássico em violoncelo, filmes alternativos: aos 22, já havia experimentado mais haute culture do que a sua cidade inteira. A jóia maior da coroa, porém, era o seu recém-adquirido Ph. D. em ciências sociais por uma das universidades mais prestigiadas do mundo: K era um dos poucos homens de sua idade que dominava com extrema maestria as artes de se compreender porquê o mundo se encontra do jeito que está. Sua formação acadêmica ainda fora enriquecida por mais estudos em línguas, artes e filosofia: com uma facilidade que envergonhava a muitos de seus professores, K conseguia citar em um diálogo comum pelo menos seis filósofos e homens da arte diferentes, sendo que normalmente ele o fazia em uma das oito línguas diferentes que dominava.

Ainda assim, toda a sua formação em alta cultura não o ensinou que, quando um cano estoura na sua casa, a primeira coisa que você faz é fechar o registro.

Pior ainda, seu doutorado não o ajudava em nenhum ponto a comunicar-se de forma informal com aquele homem que insistia em lhe mostrar o cofrinho quando se abaixava para trabalhar. Aquele homem comum era muito mais misterioso do que qualquer sistema político que ele tinha visto antes; o jovem lidava com ele tal qual o antropólogo lida com uma tribo indígena que nunca viu o homem branco antes.

K tentou mais duas vezes. O homem parecia não estar muito interessado em museus, e o último filme que ele havia visto era um daqueles filmes que ele fora ensinado a desprezar na faculdade por não possuírem valor artístico real. Planejou algumas possíveis conversas em sua mente, mas sabia que seria em vão: a falta de assuntos em comum com aquele homem lhe envergonhava, lhe massacrava por dentro. Só teve sucesso em estabelecer um diálogo quando o homem terminou o serviço e pediu o pagamento em cheque ou dinheiro, e K perguntou a ele se ele preferia notas grandes ou pequenas e se queria um pouco de chá gelado antes de ir embora.

Após a ida do encanador, o jovem ficou olhando para a pia recém-consertada por um bom tempo. Lembrou-se do cofrinho daquele profissional liberal, e de sua completa inabilidade de ter um contato um pouco menos formal com ele. Tomou um banho, deitou-se e se deixou paralisar-se e perder-se na completa falta de empatia e proximidade com os humanos que só uma formação intelectual focada em conhecer e se aproximar dos humanos pôde lhe dar.
===============
História muito mais real do que parece.

Especialmente para quem estuda humanas.

2 comentários:

danilospin disse...

realmente meme... essa vc tem que dedicar a todos os pseudointelectus do país!

Brubs disse...

Gostei do texto, principalmente da última frase. Eu acho que isso é mais comum do eu consigo pensar agora [e consigo pensar em casos sem nem ter que vasculhar na memória]. Pena que das oito línguas, o K não conseguiu achar nenhuma palavra que servisse e principalmente, nenhuma atitude. O que talvez seja pior. Mas ele sentiu que algo estava errado, o que já alguma coisa.