Decidi sentar-me para preparar-se psicologicamente para um encontro ao qual eu não estava exatamente preparado, mas que eu não mais poderia evitar.
Quando terminei a preparação, vislumbrei aquela que seria a outra parte do encontro - sendo ela também o grande motivo pelo qual este rendez-vous ocorreria.
Foi quando muitas coisas se sucederam.
Primeiro, a intuição. Aquela intuição que não ocorre frequentemente conosco, e sabemos que será marcante por um bom tempo graças à sua própria natureza de atipicidade.
Depois, um sentimento que tomou todo o meu corpo e levou-o a corar e aquecer-se ardentemente de súbito.
Então, as pernas bambas, como se o chão tivesse sumido e a única maneira de manter o equilíbrio fosse balançar as pernas de um jeito meio patético de momento em momento. Uma reação meio incomum, mas até esperada, de quando o sentimento sobe à cabeça e espalha-se por todo o corpo.
A cabeça encheu-se de sentimentos confusos até então, tonteada e nauseada pelo fluxo deles sendo criados, destruídos e ressurgindo das cinzas a cada segundo, todos com um mesmo tema em comum. Isso gerou uma tonteira, uma euforia, que impedia o pensamento racional e deixava o movimento já prejudicado pelas pernas bambas ainda pior.
A movimentação desengonçada. A aproximação. Os atos e reflexões necessárias. A tomada de consciência da real natureza da percepção inicial. E então, a angústia e a fúria.
Foi quando vieram as dores. Dores pelo corpo todo - olhos, braços, abdômen, costas. Mas, especialmente, na mente. Por que me castiga assim?! Não fiz nada de errado!, pensava, sempre que sentia a flagelação ininterrupta.
Entre uma sessão de dores e outra, aplacava a minha dor com drogas. O alívio delas era efêmero, somente atenuando o sofrimento entre um rompante de dor insuportável e outro e dando a leve sensação que tudo iria ficar pior se os químicos continuassem a invadir minha corrente sangüínea. Mas eu não podia largá-las. Quem sabe, eu pensava, elas me façam esquecer. Alternava as drogas e as dores com uma alimentação descuidada e longas sessões de sono, que invariavelmente terminavam de modo abrupto e só pioravam as dores que se seguiam após o despertar.
Este tormento iniciou-se na manhã do feriado. Foram mais de noventa horas de sofrimento quase ininterrupto, drogas de tempo em tempo, noites mal-dormidas e uma mente que funcionou loucamente quase todo o tempo. Mas, em algum momento lá pela septuagésima-nona hora, as dores se tornaram um pouco menos severas. Gradualmente, elas começaram a suavizar-se. Seria pena de mim? Ou seria apenas uma pequena provocação antes de uma sessão ainda maior e cruel de flagelos?
Independente da razão para tal, após algum tempo, as dores se foram, como se a fonte delas tivesse sido ignorada por mim e decidiu-se retirar, desgostosa, em retaliação à minha pequena demonstração de desprezo dedicada a ela. Mas apenas as do corpo - as feridas da minha mente persistem, e continuam existindo enquanto chagas que recusam-se a cicatrizar. Resisto como posso, mas as drogas nunca pareceram tão sedutoras quanto então...
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INTERLÚDIO
Não, eu não me encontrei com uma garota que eu não gosto muito; não me apaixonei subitamente por ela e tive os sintomas que causam maior embaraço social quando a paixonite atinge-nos; não descobri que a menina era uma sado-masoquista incansável, que me deu porrada o feriado inteiro até eu perder o apetite e começar a dormir mal; não fui obrigado a usar tóchico pesado pra suportar a dor física ou atenuar o crescimento da loucura que se relacionar com uma mulher dessas traz; essa mulher não foi embora do nada da minha vida após a tortura dela se tornar um nada pra mim e definitivamente não fiquei (mais) dodói da cabeça a ponto de ter drogas como o ponto de equilíbrio de uma sanidade em frangalhos.
Continuem lendo para descobrirem a real natureza desse depoimento trágico e patologicamente obcecado pela dor!
Aviso - continuar a leitura pode acabar com toda a boa impressão que você pode ter criado com a leitura desse texto, assim como você pode achar o autor um tremendo idiota por dramatizar dessa forma um fato que nem é tão dramatizável assim, se você for ver bem.
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Versão simples, direta e sem chororô:
Fui estudar estatística (já que tinha prova dali a alguns dias) na quinta, e tava procurando a apostila. Pouco depois de achar a maldita, me senti um pouco tonto, e uma dorzinha de cabeça surgiu na parte de trás da cabeça. A febre veio uns 10 minutos depois. Mais ou menos uma hora depois, começou a desgraça total: tonteira e pernas bambas, dois sintomas que te deixam se locomovendo com a finesse de um orangotango manco acima do peso; febre estável nos 39°; uma dor de cabeça colossal acompanhada por dor no corpo todo. A dor nos olhos, em especial, me torrou a paciência: eu não podia nem virá-los sem que eles doessem, como em protesto por eu tê-los virado sem pedir autorização antes.
Pra poder manter uma existência minimamente sã e livre de resmungos mal-humorados a cada segundo, comecei a tomar remédios - em especial, aspirina. Eles funcionavam por umas horas (que eu normalmente usava pra cochilar), e toda essa carreada de sintomas voltava, como se nada tivesse acontecido. Eu tinha perdido o apetite como um dos mágicos efeitos do estômago doer toda hora, e não podia ficar tomando mais remédio por causa do já combalido fígado, que estava fazendo hora extra graças à virose; a única opção de acelerar a cura da doença, além de tomar uma aspirina a cada doze horas e se encher com o máximo de água possível, era dormir feito um doente. E foi o que fiz.
Lá pelo terceiro dia fiquei melhor, e decidi sair um pouco de casa após gastar dois dias mofando sob as cobertas. Os sintomas voltaram duas horas após sair de casa. E dá-lhe ir pra casa do amigo tomar mais remédio e relaxar mais um pouco. Voltei ao esqueminha comer mal, passar mal e dormir, resignado.
No quarto dia, alguns sintomas já tinham sumido em definitivo, como a febre e a tonteira. Ao fim do dia, só tinha sobrado uma dor-de-cabeça destruidora, que durou até hoje de manhã e me fez cogitar o uso contínuo de aspirina via injeções aplicadas a cada hora - tava meio insuportável depois de um tempo.
E é isso aí - eu fiquei doentaço.
E não obstante ficar doentaço, decidi exercer o meu lado drama queen e decidi descrever do jeito mais exagerado e literário possível.
... Sim, eu não sou muito normal.
Segunda-feira, Maio 05, 2008
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