Estive na aula de francês e tive um insight durante uma das inúmeras digressões que uma turma meio dispersa e uma professora disposta a conversar sobre quase tudo acabam fazendo naturalmente. O tema, no caso, era sobre livros - mais especificamente, sobre o estado deles agora e o futuro deles.
Percebi que tenho problemas com livros quando comecei a falar uma mistura escrota de francês e português quando fui descrever o porquê de achar que a leitura na forma de livros é infinitamente superior do que ficar olhando essa luminária composta de cristal líquido que a ciência chama de "monitor de LCD". Não vou me lembrar muito bem o que eu disse, mas foi mais ou menos assim:
Professora, em tom normal: J'aime bien les livres, parce que lire dans l'ordinateur m'ennerve!
Flávio, em tom jocoso: Et je les aime parce que tu ne peux pas dormir et embrasser l'ordinateur pendant la lecture! *Risos*
Eu, no que eu chamo de "exasperação positiva" por não saber um belo sinônimo para tal estado de espírito, e falando em tom apaixonado: J'aime les livres parce que l'experience de les lire n'est pas égal à autre chose que je connais... Le toque des pages... Le cheiro... Le baru.. ehr, bruit des pages..."
*Risadas e comentários engraçadinhos ao fundo sobre a mistura linguística*
*Som da vergonha entrando na sala e sentando-se ao meu lado*
(Tradução porca e devidamente localizada da minha fala: "Eu gosto dos livros porque a experiência de lê-los é muito diferente de qualquer outra coisa que já fiz. O touch das páginas... O smell.. O noi... ehr, barulho das páginas...")
Obviamente, há algum problema com você quando, ao falar bem de algo, você parece estar falando de sexo ou de membros do sexo que te atrai caso se troque o sujeito/objeto das sentenças em questão.
Bom, a verdade é: eu realmente sou meio doente por livros.
Acho que livros são brinquedos fantásticos. A começar pelo aspecto técnico deles, tipo a gramatura do papel, as fontes utilizadas para escrever e as diferentes maneiras de se fazer a capa: todos esses detalhes geram livros totalmente diferentes uns dos outros. O cheiro muda, o peso muda, a sensação ao toque muda, o barulho ao virar as páginas muda, o som oco que soa quando o livro cai muda: muita gente não nota, mas livros são experiências sensoriais muito interessantes e que apelam pra quase todos os sentidos - todos eles, caso alguém mais apaixonado goste de mascar pequenos pedaços de romances e afins.
Fora o conteúdo - excelente para solucionar uma porrada de coisas. Normalmente, reflexão e fuga são os motivos de maior sucesso para ler um livro - pelo menos para mim. Livros são excelentes refúgios da vida real; quando se está lendo em público, muitos poucos vão te incomodar e você pode mergulhar sem muitos problemas em histórias que vão te fazer perceber que o mundo é bonito; ou o completo oposto; ou então vão te aplacar um pouco de dor e frustração que não se consegue resolver na vida real mas que são convenientemente esquecidos por alguns momentos graças a um adevogado meio cínico escrevendo autobiografias após ter morrido.
Essa minha relação com os livros data lá dos 13 ou 14 anos, quando percebi que ser um excluído social meio que limitava seus contatos com a dita "vida real" na maior parte das vezes a frustração, rejeição, backstabbing e preconceito muitas vezes estabelecidos por regras sociais imbecis que datam da terceira ou quarta série do primário, e você acaba partindo para atividades que te isolem do contato social normalmente doloroso - as mais clássicas e comuns sendo quadrinhos, livros, filmes, videogame e computador. Acabei me focando em todas elas, mas os livros pareceram as menos perdedoras e mais recompensadoras dentre elas. São as que mais gosto, ao menos.
Surgindo inicialmente como pontos de fuga, lazer e aprendizado, livros acabaram por funcionar como um trampolim para interações sociais um pouco mais inteligentes e recompensadoras do que o esquema baladinha-catar todas-música eletrônica ruim-se drogar para se afirmar perante os amigos. Acabaram por me dar um pouco de prazer no estudo, o que caiu como uma luva no meio academicuzão em que vivo. Me introduziram a alguns amigos e situações sociais que me ensinaram que a mínima parcela da sociedade que não é filha-da-puta vale muito a pena de se conviver. E me deram conversa também para não ser só mais um nerd chato que só sabe falar de desenho animado, videogame e filme que ninguém nunca ouviu falar. Meio que consertaram a minha vida.
Enfim, livros são coisas fascinantes que podem te conceder muito mais do que se propõem a dar.
ALERTA: COMENTÁRIO BREGA E DE TOM ROMÂNTICO ABAIXO
Assim como as mulheres.
A diferença é que com as mulheres não basta você abrir, ouvir o barulho das páginas, sentir a gramatura entre o polegar e o indicador e ler o prefácio para que elas gostem de você tão facilmente quanto você gosta delas após você fazer essas atividades. Uma pena. :(
Segunda-feira, Abril 07, 2008
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2 comentários:
Um manifesto fetichista do livro!
(zueira!)
A comparação entre livros e mulheres é precisa. Uma pena. :(
num momento de extremo desencanto - com quase tudo - esse manifesto fetichista - não é só brincadeira chata do bróder - me soou ridículo mekarinho...
pena pra mim...
preciso voltar a conversar contigo...
sinto saudades...
ps: preciso criar o hábito de ler esse blogue...
comentário franco que não poderia faltar: os textos longos desanimam um bocado, mesmo sabendo que sempre encontro coisas interessantes... talvez eu não tenha mais solução
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