Terça-feira, Abril 15, 2008

Conto - Alívio

Trabalho num escritório grande de contabilidade de uma empresa por aí. Fica bem perto de meu apartamento; posso ir a pé em menos de meia hora até o local de trabalho.

Em um dia, antes do trabalho, fui comprar alguns cigarros na padaria.

Não tinha a marca de sempre; fui obrigado a me virar com aquela que o balconista recomendou (leia-se praticamente me empurrou-a goela abaixo). Meio de mau humor por esse pequeno imprevisto, paguei pelo maço com uma nota de dois e algumas moedas e enfiei-o no bolso da calça sem perder muito tempo.

No caminho para o trabalho, reparei no vizinho marcando alguma coisa nos vários papeizinhos da Lotérica, e então gastando uma pequena fortuna nos bilhetes que preenchera. Era um ritual que me lembro de ver desde que o escritório mudou-se para a avenida e eu comecei ir a pé até ele; ao que parece, essa era a única oportunidade que o velho aposentado e desprovido de qualquer contato humano mais íntimo tinha para conseguir alguma emoção e atenção nessa fase de sua vida - ele tinha que preencher e comprar bilhetes de loto para conseguir ter algum assunto pra conversar com o caixa e com os outros apostadores, as poucas pessoas além do padeiro que davam alguma importância à sua existência. Me lembro até hoje do comentário que atravessou a minha mente quando ouvi a história completa: pobre velho, queimando esperança dessa maneira só pra fugir de um problema que ele não quer encarar de frente, e aliviar-se com a grande mentira que é a loto.

Não senti pena no meu comentário. Era um pouco de nojo. Desprezo, talvez, represente melhor o sentimento daquele momento. Fugas da realidade tão explícitas e descaradas assim costumam atrair esse sentimento em qualquer um.

Cheguei, e o escritório estava passando por duas situações inusitadas. O chefe havia sido acusado com provas irrefutáveis de pedofilia e assédio sexual, estando no limite de cometer resistência à prisão enquanto fingia que estava ligando para seu advogado no celular; no outro lado do escritório, agentes da Polícia Federal recolhiam computadores - entre eles, o meu - que, graças à falta de encriptação de dados em relação aos documentos, iriam mostrar que ultimamente tínhamos utilizado algumas contas da empresa para lavar dinheiro de alguns de nossos... Beneficiários.

O escritório virou um desastre quando o chefe decidiu pegar a arma que escondia na gaveta do escritório e atirar na própria cabeça. Ficou ainda pior quando dois de nossos colegas de trabalho mais próximos a nossos..."clientes" decidiram que os policiais carregando computadores deviam ser utilizados como aquilo que eles mais pareciam na hora: alvos indefesos contra armas contrabandeadas de Israel. Pessoas começaram a gritar, correr, chorar, se jogar no chão, sangrar, suar, clamar por alguma entidade que muito provavelmente não as salvaria naquela situação.

Corri para o banheiro. Anos e anos fazendo isso durante o colégio me tornaram um especialista nisso - depois de um tempo, a associação entre "perigo" e "correr pro banheiro" se torna praticamente pavloviana. Nesse caso, detectei o perigo logo após a decisão do chefe de decorar seu cubículo com vermelho-sangue adornado com restos de osso e miolo, e decidi correr pro banheiro antes que o rapaz da Soluções Logísticas puxasse uma pistola sabe-se-lá-de-onde e começasse a atirar.

No movimento mais rápido que pratiquei em toda a minha vida, abri a porta e entrei. Em um só movimento, bati a porta com força e tranquei-a. Joguei minhas costas contra ela, e usei meu corpo para não forçarem a entrada no meu recém-estabelecido santuário.

Estava nervoso. Precisava agir logo, ou então eu seria o próximo a ter um diploma forçado de decoração de interiores com ênfase em pedaços humanos na parede. Não conseguia pensar direito. Sentei no chão, exausto com todo o esforço dispendido no último minuto, e senti algo duro picando a minha bunda. Era o maço de cigarros (mais especificamente, suas quinas pontudas) me relembrando de sua existência.

Peguei os fósforos no bolso da frente e o maço do bolso de trás. Pude examinar, pela primeira vez, o produto que o balconista da padaria praticamente me implorou para comprar. Cigarros Esperança?! Mas que diabo...?

Não tive muito tempo pra elaborar comentários sarcásticos acerca desse nome, como manda a norma de se fazer piadas ruins em situações extremas que envolvem ação com armas. Acendi e terminei um, dois, três, quatro, cinco cigarros em quinze minutos graças ao nervosismo, medo e ansiedade meio extremos. Em meio ao barato do tabaco tostado, em meio à zonzeira vinda da falta de ar proporcionada pelo consumo de cinco cigarros em um período de tempo anormal, em meio ao PORRA EU TAVA PRA MORRER NAQUELA MERDA E NEM ERAM DEZ DA MANHÃ AINDA da adrenalina circulando no meu sangue, eu simplesmente decidi deitar, sentir o frio dos azulejos e viajar no movimento giratório das luzes brancas e halógenas do banheiro enquanto o sexto palitinho de câncer queimava devagar no canto da minha boca.

Enquanto apreciava o gelado agradável dos azulejos fedendo a mijo e nicotina, ouvi a voz do velho da loteria em algum canto.

Pobre moleque, queimando Esperança dessa maneira só pra fugir de um problema que ele não quer encarar de frente, e aliviar-se dele com uma grande mentira que é a invencibilidade garantida àqueles que se refugiam no banheiro e fumam compulsivamente.


Me senti meio patético quando o velho terminou de demonstrar seu desgosto por mim. A última parte soou especialmente forçada e carregada com um sarcasmo de tal ordem que me deu vontade de socar o queixo daquele maldito enrugado, porque não apenas ela era meio absurda, como foi dita em um tom muito paternal. Era como se alguém com a voz do Bob Esponja anunciasse que você tem câncer; o tom errado para uma informação tenebrosa.

Mas não sei. Decidi abraçar a mentira naquele momento e deixar o velho e o teto giratório luminoso pra lá. Ela era suficientemente confortável e satisfatória até alguém resolver toda aquela treta lá fora ou até minhas entranhas virarem material alternativo de pintura, o que viesse primeiro.

Não era a primeira vez que eu me abraçava a uma mentira pra não ter de encarar uma realidade terrível, e nem seria a última. Também não era algo que só eu fazia - era algo que todos nós fazemos e, na maior parte do tempo nem percebemos. Pra mim, as "belas mentiras" começavam nos cigarros, e eu nem ao menos sabia onde elas terminavam - com certeza, não era na invencibilidade garantida quando eu me refugiava dos meus problemas num banheiro qualquer.

Não me lembro muito bem de como saí dessa treta sem nenhum ferimento muito grave; porém, me lembrarei por um bom tempo do falso alívio concedido por azulejos meio sujos acompanhados por cigarros terrivelmente ruins e de nomes muito suspeitos durante períodos de imortalidade no banheiro do trabalho.

Três belas mentiras, três belas escapadas da realidade, em um só dia; eu já não precisava de mais nada. Talvez de um seguro de vida e imunidade a violência randômica, mas isso eu supero fácil.

1 comentários:

Harry disse...

Foi um massacre contado de um ponto de vista tão absurdo, mas tão absurdo, que foi um massacre bem engraçado.

E olha que eu não sou do tipo que aprecia massacres com leveza e alegria.