ELE ACORDOU em uma cama que não lhe pertencia, o que lhe causou um incômodo um tanto grande e rendeu dois segundos de olhos esbugalhados e uma cara de espanto de tal maneira que, caso documentada na forma de fotos, renderia mais um meme, mais uma foto para a coleção de fotos engraçadas que as pessoas mandam para as outras por email e mais uma pseudocelebridade internética que teria direito de dizer em algum programa de variedades como aquela foto arruinou mais uma vida social já combalida. A cama e o quarto estranhos incomodavam não por causa de alguma amnésia entorpecente que o levou a lugares desconhecidos que ele provavelmente lamentaria ter desbravado; isso o incomovada porque nos segundos finais de sono antes de sua consciência emergir de mais algum sonho onde ele morria de formas bizarras (desta vez fora uma chuva de patos flamejantes), ela formava a imagem mental de seu quarto, preparando-o para um despertar que ele já havia experimentado desde que ganhara um quarto só seu quando o irmão mais velho foi embora da casa dos pais. A sensação sempre era a mesma: um conforto de saber que durante o sono, nada mudou no mundo além da claridade que entrava pelo corredor. Um conforto... conservador, por assim dizer.
Graças a esse atípico funcionar de sua mente, acordar em uma cama que não lhe pertencia era como a velha e gasta metáfora do gato por lebre; era começar o dia com uma pequena decepção causada por uma mente que lhe promete algo mas sentidos que lhe dão algo bem diferente do prometido. Isso o irritou um pouco.
Averiguar o resto do quarto não melhorou muito isso. Talvez pela mente ainda nublada pelo Estranho Mundo de Jack Daniels, talvez pelo cheiro de patchouli que despertava e chamava à liberdade coisas que ele gostaria que não saíssem de onde estavam (mais exatamente, do estômago e da vesícula biliar) ou talvez pelo caleidoscópio nauseante composto por bichinhos de pelúcia, pôsteres de bandas que ele nunca ouviu falar, pequenas esculturas de cristal e o reflexo da tevê incididos pelos raios de sol, mas tudo naquele quarto lhe parecia um excelente material para o que, no jargão dos especialistas, se chama de incêndio criminoso causado por motivações que, guardadas as devidas proporções, podem ser chamadas de loucura.
Sua irritação cresceu mais um pouco, e aumentou para níveis perceptíveis por qualquer um quando ele percebeu que estava atrasado para o obrigatório almoço corporativo com o resto da empresa - uma daquelas políticas empresariais que deveriam agregar mais os funcionários, mas cujo único efeito prático e perceptível era reunir a maior quantidade de pessoas dispostas a rir das piadas mais sem-graça do universo. Não aparecer significava ter de ouvir, no dia seguinte ao almoço, um pequeno sermão da autoria do chefe sobre como a empresa ruiria caso ninguém socializasse com o resto da empresa rindo das piadas sem-graça do chefe enquanto come sushino dia seguinte ao almoço; seria a oitava ou nona vez que ele ouviria isso em sua meteórica carreira como estagiário em regime de semi-escravidão.
A irritação teve uma pausa quando algo se mexeu do seu lado na cama.
Era uma garota que fazia o seu tipo - um tipo de garota que felizmente aparecera em lotes enormes com a paradoxal emergência do estilo alternativo para fora do círculo alternativo:
pálida, rosto com traços finos, cabelos curtos, lisos e extremamente escuros, mechas de um vermelho meio desbotado, um pouco mais magra do que o normal. Provavelmente os óculos de aro grosso estavam caídos sob a cama durante o frenético despir do pré-sexo, juntamente com as peças de roupa de padrão listrado-em-preto-e-branco. Enfim, ele era um cara que gostava das meninas um pouco... estranhas para o padrão de beleza vigente. Normalmente eram elas que conseguiam aliar o papo-furado metafísico que denotava inteligência sem muito pedantismo com beleza em quantidade suficiente para não despertar ciumeiras desnecessárias ou apelidos maldosos como "pantufa".
Ele tentava se lembrar do trajeto que o levou a conhecê-la naquela festa depois da aula e que deu tão certo que ela o levou para testar o colchão do quarto dela, mas não conseguia. E isso o irritou um pouco mais - ser capaz de relembrar fatos ruins e/ou patéticos é algo ruim, mas não conseguir se lembrar normalmente indicava que o Estranho Mundo de Jack Daniels muito provavelmente rendeu algumas presepadas que serão comentadas a sussurros no próximo intervalo das aulas da faculdade, uma possibilidade que era desesperadora e enervante ao mesmo tempo.
Sua concentração só conseguia recuperar migalhas. Mas depois de um tempo à cata delas, seriam migalhas o suficiente para avaliar se aquilo que começou com uma anedota sobre Derrida teve um final feliz que será contado aos amigos nos próximos dias; ou o faria bater o recorde de velocidade em vestir roupas, inventar uma desculpa, sair correndo de uma casa desconhecida e entrar naqueles dias que temos um desejo assassino impossível de se deter sem envolver mortes ou quantidades absurdas de álcool ou comida.
A trilha de migalhas o levou a relembrar de alguma coisa envolvendo ele e coreografias não muito saudáveis para a imagem que alguém quer manter de sério. Levou também a diálogos nublados com pessoas que ele lembrará prontamente do rosto, mas terá sérias dificuldades para lembrar o nome e causará alguns momentos de constrangimento para as duas partes. Isso também aconteceu com a garota que dormia ao seu lado; em relação a ela, ainda houve uma pequena odisséia para convencê-la que ele não estava querendo somente levá-la para a cama com chavecos intelectualizados (o que não estava muito distante da verdade).
Tudo isso o irritava profundamente. Ele precisaria de um drinque para nublar a real gravidade disso tudo em sua cabeça. Mas primeiro, precisaria achar suas calças.
E então, ele cometeu o erro de olhar mais uma vez para a esquerda e perder alguns minutos vendo-a brigar com o cobertor enquanto tentava coçar o rosto esfregando-o no travesseiro. Não era muito diferente de uma criança de sono agitado. Pelo menos ela não puxa tudo só pra ela, pensou. Tudo pareceu meio estranho por um momento: provavelmente a vida dele estava um caos e exigia soluções imediatas, mas lá estava ele observando uma garota que provavelmente causava hematomas em noites de sono mais agitado.
Sem entender muito o porquê, ele decidiu se deitar novamente e abraçar aquela garota. Ela sorriu, enquanto o sono ficava ainda melhor com aquela pequena dose de calor humano. Ele sorriu, em um abraço que pausou a sua vida por alguns segundos e o deixou experimentar por algum tempo uma pequena dose de paixão. Nada mais importava no momento; a verdadeira felicidade estava ali, naquela cama que era um pouco pequena para os dois.
As coisas ficaram um pouco preocupantes quando ele não conseguiu disfarçar muito bem o fato que ele havia esquecido o nome de sua amada.
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Bom, sei lá, opinem. Tá brega pra caralho, mas eu tava querendo escrever um conto já fazia algum tempo.
Sexta-feira, Março 28, 2008
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2 comentários:
Assim como a menina indie fazia o tipo do teu personagem, esse tipo de conto faz o meu estilo. É de uma banalidade apaixonante, o tipo de coisa que dá prazer de ler, pura e simplesmente.
Com mais uns 20 iguais a esse, dá pra publicar uma coletânea pela Companhia das Letras, naquela coleção de Novos Autores.
Espero por mais contos!
Curti! Uma banalidade saborosa... sei que "banalidade saborosa" é um comentário idiota e pseudo intelectual, mas o tom azul da manhã que me veio a cabeça (e o azul do fundo do seu blog) aliado ao conforto que o personagem sentia no fim do conto, me levou a esse comentário que, para mim, é azul claro... ou seja, eu não fiz um comentário, só uma sinestesia que não interessa a ninguém além de mim.
O enredo é muito bom, o modo como você vai desenvolvendo esses segundos pós-acordar é muito bom e rolou até uma identificação (na parte do incêndio criminoso... e na parte da indiezinha também) e a idéia do desfecho eu achei do caralho, esse amor por uma desconhecida. Mas acho que o último parágrafo fechou o conto muito secamente, muito vagamente... eu teria usado adversativas, tentando ressaltar que ele não sabia quem era ela, mas a amava.
Mas pensando bem, esse tom vago condiz muito melhor com o resto do texto, conotando o ar atrapalhado do protagonista e o tom semi-preocupado de sua vida.
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