Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Relato de Viagem - Dia 24

Hmn, esse vai ser mais um balanco da viagem ate agora do que as minhas incriveis (?) aventuras por esse pais (???) estranho. Vai envolver tambem um pouco de reflexao introspectiva da minha detestavel pessoa. Entao, ja fiquem avisados: nao vai ter nada que va alem de chororo e reflexoes bestinhas.

Plagiando e repetindo uma frase que venho dito e tenho ouvido muito ultimamente sempre que me reuno com os caras com quem convivo quase todo dia, posso resumir tudo que aconteceu ate agora como "nao tou ganhando dinheiro, mas tou me divertindo pra caralho". Nao ter dinheiro eh uma merda por nao deixar extravasar o impulso consumista que satisfaz a qualquer um criado durante os anos 80~90 (ate mesmo os que nao querem admitir isso ou parecem nao admitir isso) num pais onde o "binomio do poder" consumo desenfreado-desperdicio eh a lei e o elemento cultural mais forte, mas eh extremamente gratificante quando voce percebe que, no final, as atividades que consomem pouco ou nenhum dinheiro tornam-se aquelas que voce vai lembrar no futuro, dar risada e te relembrar que voce virou um velho nostalgico - nao que isso seja ruim, claro.

Acabei percebendo tambem que a antropologia, alem de criar relativistas extremistas e com cegueira seletiva com uma certa frequencia, eh extremamente util para compreender e aproveitar melhor ambientes onde quase tudo torna-se um pequeno suplicio para se compreender ou vivenciar por causa das malditas barreiras culturais que, a despeito do que o Francis Fukuyama disse ha quase 20 anos atras, ainda nao cairam com o fim da historia e persistem com muita forca - pelo menos quando se compara um pais de raizes culturais ainda fortemente anglo-saxonicas com um pais que eh um puta puteiro do caralho no que diz respeito a tracar raizes culturais e linhas culturais dominantes dentro de um determinado grupo populacional. Tem exemplos demais pra dar por aqui, mas saber que aqui alguns acontecimentos banais do Brasil possuem carater ritualistico e que habitos alimentares sofrem muito mais influencia do ambiente que se vive do que de uma cultura x ou y - e que acabam tendo influencia no preco das comidas por aqui - ajuda muito a nao dar mancada na frente dos gringos e ajuda ainda mais a economizar no supermercado.

Outra coisa que a antropologia ajuda eh na selecao de praticas que parecem estranhas aos gringos, mas que sao comuns em sua cultura original e vice-versa, retirando o melhor que cada cultura tem a oferecer sem deixar uma ou outra de lado. Tipo comer salada e frutas com uma frequencia que, para eles, eh assombrosa. Isso poupa a compra de remedios para doencas gerais e auxilia o intestino - o que eh muito bom, visto que farmacia aqui eh como padaria no Brasil, tem uma em cada esquina e os produtos vendidos sao ridiculamente baratos e variados; ou entao comer um cafe-da-manha reforcado com carne e ovos porque voce sabe que o almoco oferecido em qualquer restaurante decente eh bem fraquinho e nao alimenta quase nada - o que eh o exato oposto do Brasil, onde comer qualquer coisa que nao seja leite e pao no cafe eh coisa de gente estranha. Obrigado, antropologia - gracas a voce nao vou ser um estrangeiro babaca que so da mancada na frente dos estadunidenses, e tambem nao serei um aculturado idiota que virara paga-pau dos norte-americanos.

Perdi um pouco da frescura com comida, o que eh uma maravilha - nao tem comida muito saborosa e nutritiva aqui a precos convidativos como no Brasil, entao sou obrigado a me virar comendo o que tem de disponivel com um nivel de selecao um pouco mais baixo do que mantenho normalmente. O ideal seria perder totalmente a frescura, o que ajudaria muito a adqurir o tremendamente estimado estomago de avestruz, que ajudaria muito a comer qualquer merda em grandes quantidades sem ficar doente e se satisfazendo bem. Nao penso muito nos beneficios fisiologicos do estomago de avestruz, mas sim nos beneficios financeiros - comer mal aqui sai muito, mas MUITO barato. Cerca de metade do preco de se comer rango bom todo dia.

Continuo ranzinza e com uma visao meio acinzentada do mundo, sendo que os comentarios azedos tipicos de gente velha e frustrada/ressentida com o mundo sao persistentes. Melhorei um pouco no que diz respeito a reclamar da vida - reclamar menos e fazer mais tornou-se algo obrigatorio por aqui pra nao morrer de fome ou ficar o dia inteiro em casa fazendo nada porque nao tem trabalho. Tem gente que chama isso de amadurecimento ou o famoso "virar gente"; eu chamo isso de unica alternativa pra nao dar o golpe final em uma vida social em frangalhos e, por consequencia, acabar ficando deprimido. (Viu, viu? Um tipico comentario de velho ressentido!)

Resumo da opera: estou gostando de ficar por aqui, a despeito dos problemas; e estou agindo um pouco mais como a minha idade biologica manda. O tempo de biblioteca esta acabando, entao ate mais! o/

Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

Relato de Viagem - Dia 13

Uma semana sem escrever. Eh, a inspiracao e outras coisas a fazer acabaram tomando um pouco mais de meu tempo.

O trabalho esta meio fraco - juntamente a baixa temporada, esta ocorrendo uma reforma total no hotel que trabalho. Isso acaba por espantar todos os clientes, que nao querem dormir e passar seu tempo em um lugar com muito barulho e sem lugares pra estacionar, e por conseguinte me deixa com trabalho so em dois dias da semana. Pior pra eles, jah que o lugar eh lindo e tem algumas das vistas mais legais do mar e da costa que ja pude presenciar (fotos vindouras logo). Pior ainda pra mim, que fica sem gorjeta e trabalho. :(

No setor de porcariadas e impulsos consumistas totais, perdi meu vicio por donuts. \o/ Cozinhar eh mais divertido e menos custoso, bem como ensina a se virar caso um dos pre-requisitos pra arranjar algum trabalho seja "ser uma dona-de-casa prendada".

Ultimamente, tenho me revoltado com a falta de coisas "tomaveis" por aqui - os refrigerantes sao lixosos, agua eh bom mas te da aquela sensacao que algo esta faltando, nao existe suco tipo maguary aqui, gatorade/alcoolicos estao fora de questao por problemas de saude e eu nao tenho processador/mixer/liquidificador pra fazer suco de fruta processada. Pobres ianques, nao sabem como tomam lixo e nao conhecem as boas bebidas (nao-alcoolicas) da vida.

Ontem aconteceram duas coisas divertidas. A primeira foi a pior nevasca em vinte anos - caiu neve pra caralho, em poucas palavras. Eu e os outros companheiros de viagem nos divertimos muito correndo na neve, comendo neve, jogando neve nos outros e coisas assim, que so criancas, caipiras e gente vinda dos tropicos faz quando ve os flocos de gelo caindo do ceu e se acumulando no chao. So nao foi divertido voltar pra casa a pe, de noite, com uma tempestade dessa na cabeca e doze centimetros de neve no chao - o vento gelado com os flocos de gelo davam a impressao de estar chovendo agulhas na cara, e enfiar o pe na neve eh pedir para gela-lo de forma fudida e acabar estragando o tenis com a umidade e o frio extremos. Se fuder um pouco na neve, porem, foi extremamente divertido, apesar de tudo.

A outra foi tomar conhecimento da existencia de mais uma duzia de brasileiros num hotel que fica perto de onde trabalho - gente legal, divertida e que parece ter predisposicao a fazer bobagem junto com a gente no estrangeiro. Foi bom pra falar muito portugues (como se eu ja nao fizesse muito isso) e relembrar que, ainda que os gringos sejam muito mais legais do que esperavamos, os brasileiros sao ainda melhores em serem simpaticos e divertidos.

Tenho renegado um pouco a tarefa de pegar a camera e tirar fotos, apesar de pedidos de todos os lados - parece que elas nao expressam muito bem as paisagens, experiencias e locais que temos visto e tal. So a imagem nao representa muito bem o que se quer passar via fotos: coisas como o frio, os cheiros e demais sensacoes que faltam nas fotos tornam dificil ver o ato de tirar fotos como algo que va dar a ideia exata do que estamos passando, vendo e experimentando por aqui. Por isso, fico devendo fotos - de novo.

Meu horario da biblioteca esta quase expirando, entao ate mais! o/

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Relato de Viagem - Dia 5

Farei algo diferente hoje, e escreverei sobre um tema especifico que diz respeito de forma indireta a viagem: falarei sobre comida e alguns aspectos dela aqui nos EUA.

O primeiro aspecto eh pra destilar um pouco de furia sobre os americanos: porra, eles desperdicam muita comida. Eh revoltante ver gente que da duas mordidas em um hamburger de 450g, come seis batatas da sua porcao de 250g e toma um gole de seu refrigerante de meio litro, pra depois deixar de lado e pedir para o pobre assistente de garcom (vulgo eu e meu irmao) levarem tudo embora.

Durante o trabalho ontem e hoje, fiz alguma contabilidade porca e grosseira, e cheguei a uns numeros que me dao vontade de tocar fogo naquela merda: dos cerca de 60 pratos que servi e tive de recolher, soh uns 10 estavam limpos; outros 10 tinham pelo menos 1/4 do prato com comida e todos os outros quarenta tinham metade ou mais do prato com comida ainda.

O pior eh que as porcoes de qualquer coisa aqui sao naturalmente grandes, mas da pra pedir porcoes menores - porem, ninguem faz isso; parece que faz parte da etiqueta voce pedir o tamanho-padrao e jogar o que nao aguenta fora. Depois ficam vendo a crise do lixo no noticiario da teve, ficam bravos de ter que pagar mais imposto pra ampliarem os aterros e nao sabem o porque dela ter acontecido, como se nao fizessem parte disso tudo >:|

O segundo eh pra falar do aspecto viciante e altamente apelador ao desejo das inumeras tranqueiras alimenticias que vendem por aqui. Eh incrivel, mas qualquer comida produzida de forma nao-industrial (o que acaba excluindo quase todos os fast-foods) tem uma apresentacao incrivel no prato/embalagem/aspecto exterior. Um hamburger com batata frita nao eh simplesmente o hamburger "fechado" com a batata frita num prato a parte: os buns (pao de hamburger tostado) ficam em extremidades opostas do prato, cada um possuindo uma parte do recheio - a "Tampa" fica com a alface, tomate, cebola e picles; a parte de baixo fica com a parte nao-vegan do sanduiche (maionese, hamburger, queijo, bacon). Entre as duas metades, batatas fritas douradas, soltando vapor e aquele cheiro delicioso de coisa frita, que automaticamente faz voce babar e virar uma maquina que so quer saber de cometer o pecado da gula.

Descrever com palavras uma experiencia que ao mesmo tempo envolve olfato, paladar e visao nao da muito certo, mas acho que ja deu pra voces terem uma ideia disso tudo. E isso porque eu nao falei dos donuts - soh pra resumir, eu que nao sou de comer muito doce estou comendo pelo menos um a cada dia, normalmente conseguindo variar os sabores a cada turno apos o trabalho. Estou me sentindo muito como um gordinho viciado em porcaria. :(

O terceiro aspecto soh reforca ainda mais esse aspecto gordinho: eu trabalho numa cozinha de hotel.

Por um lado eh bom, gracas a politica de ultra-desperdicio dos clientes. A cada dia, preparam-se porcoes gigantescas de croissants, bacon, salsicha, omeletes, torradas, bagels (um tipo de broa judaica; eh o equivalente estadounidense do nosso pao frances), muffins e uma porrada de coisas que vao naquele cafe-da-manha extremamente indigestos. Ha um porem: nunca que os clientes vao comer tudo aquilo de comida, gracas a mentalidade de alto desperdicio dos mesmos.

Gracas a isso, os funcionarios do hotel inteiro passeiam de quando em quando na cozinha, comendo um bolinho ingles aqui, pegando umas fatias de bacon ali, fazendo um sanduiche de linguica do outro lado da cozinha, se entupindo de cafe e chocolate quente... Muitos nem tomam cafe da manha antes de irem pro trabalho; ao inves disso, se empanturram com as coisas do hotel que irao pro lixo assim que se encerrar o horario do cafe-da-manha do restaurante.

No horario de almoco a coisa eh um pouco mais restrita, porque eh o horario que o supervisor-mor fica dando voltas na cozinha - gracas a isso, pega um pouco mal ter alguns funcionarios de outros setores pegando comida que nao lhes pertence. Porem, eh nessa hora que as maquinas de refrigerante ficam funcionando a todo vapor, gracas aos clientes que vao desperdicar mais comida das 11 ate as 14h. Nessa muvuca, os funcionarios acabam sumindo com alguns litros de refrigerante da fonte da cozinha.

Junte a isso o "bandejao" dos funcionarios (realmente achou que a gente come os pratos chiques que preparam na cozinha?! Pobre crianca inocente!), que funciona de forma quase igual ao bandeco da unicamp - com a diferenca que ao inves de maquina de suco e cha eh maquina de refrigerante 'a vonte', e que voce pode repetir tudo, incluindo as buffalo wings e o macarrao com almondegas, com a unica limitacao que voce pode ficar por lah durante o seu periodo de almoco (que costuma ser de meia hora).

Em poucas palavras, o ambiente eh propicio a fartura de comida, e todo mundo aproveita isso, querendo ou nao - incluindo eu.

O lado ruim eh que, sem perceber, voce acaba comendo pra caralho. Hoje fui pensar no que havia comido de manha, e consegui elencar quase tudo: a lista eh, basicamente, cereal sabor chocolate com pasta de amendoim (?!), duas fatias de bacon, uma linguica, um bagel com cream cheese, dois copos grandes de suco, duas torradas com geleia e um bolinho de chocolate. No almoco, obviamente, comi pouco - uma porcao de macarrao e uma coxa de franco apimentada.

A gula eh terrivel, e soh faz piorar o complexo de gordinho que tou pegando por aqui. Porra, eu quero comer soh quando tou com fome! Comer feito um porco soh porque tem muita comida bonita e gostosa me cercando por todos os lados nao eh legal e dah um puta complexo de culpa depois :(

(eh, fui contaminado por um medo mortal de engordar >:/ mierda!)

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Relato de viagem - Dia 4

Finalmente cheguei em Rhode Island, e jah tive meu primeiro dia de trabalho.

Sobre o trabalho: nao sei se ele aliena, mas com certeza ele da dor nas costas e nos musculos dos bracos.

Apos ser mudado pela terceira vez de emprego, finalmente me fixaram na posicao de assistente no restaurante - na pratica, isso quer dizer que arrumo mesas, levo as coisas pra lavar, pulo (do verbo "polir", nao pular) talheres e copos, tenho que saber usar o terminal de pedidos e, eventualmente, sou obrigado a levar coisas pros quartos das pessoas. Isso eh duplamente bom, visto que aumenta bem a quantidade de gorjetas que receberei e me ajuda a fortalecer o corpo - em media, as bandejas vem com uns seis ou sete copos e o mesmo numero de pratos, juntamente com os talheres. Eh um puta peso, mas eh muito bom: nao tenho tido tempo/disposicao para praticar esportes desde que cheguei aqui, e exercitar-se no trabalho me da mais tempo de fazer outras coisas.

O povo do trabalho eh engracado - o chefe eh um barman profissional que, aparentemente, faz um dos melhores martinis da regiao; alguns de meus companheiros de trabalho sao jamaicanos que, como os passaros, migrarao em breve para o sul para fugir do frio; a minha superior direta tem o sotaque mais estranho do mundo, o que me faz entender muito pouco do que ela diz e a forca a falar comigo como se estivesse abordando uma crianca de 10 anos.

Sobre a casa: ela eh bonitinha (fotos virao mais tarde). Tudo funciona e eh aquecida. Eu e os dois companheiros de apartamento estamos nos fodendo um pouco pra aprender a fina arte de ser uma dona-de-casa prendada, mas estamos pegando o jeito pouco a pouco.

Num assunto a respeito disso, eh preciso lembrar sempre que COMIDA AQUI EH CARO PRA CARALHO. Meu irmao e eu fomos fazer compras pra casa; gastamos trinta e tres dolares com carne, arroz, ovos e salada para UMA semana - com esse dinheiro, da pra fazer compras pra um mes na terrinha querida.

Em outro assunto a respeito, aqui eh frio demais. Hoje esta um dia quente; lah fora estamos a incriveis dois graus centigrados. Na media, faz entre -5 e -10 a cada dia, com sensacao termica sempre em torno dos -10 ou -15; morar perto do mar no norte nao eh uma boa ideia se voce nao gosta do frio.

Gracas ao frio, este se torna o unico pais onde homens que compram e usam locao hidratante, protetor labial e creme para a pele nao sao considerados metrossexuais ou da "pa virada": quando voce volta para a casa com a pele descascando rapidamente e os labios prestes a cair por causa do vento de -10 graus, voce percebe que ou voce recorre aos creminhos de fresco ou fica parecendo uns 10 anos mais velho.

Os nativos daqui sao simpaticos - te cumprimentam na rua mesmo quando voce nao os conhece, sao solicitos para dar informacoes e nao hesitam em falar como gostariam de ir para o Brasil ver o carnaval e comer feijoada. Aqui em Newport temos uma colonia relativamente grande de portugueses e brasileiros que jah passaram pelo processo de abandonar a cidadania brasileira e tornarem-se american citizens; gracas a isso, nao somos vistos como selvagens vindo de algum buraco cheio de mato que soh fazem bagunca.

Ainda nao senti muita saudade da terra natal. Vamos ver como isso fica daqui a mais alguns dias.